Janeiro 9, 2014

Entrevista — Márcia Icléa Bagnatori: Em busca da sensibilização e dos recursos necessários para a inclusão

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img51Direcional Escolas – Quando você diz que as escolas precisam ser subsidiadas para trabalhar a inclusão como um todo, isso inclui que tipo de suporte?

Márcia Icléa – Mais importante é a sensibilização dos professores, pois a grande maioria NÃO quer trabalhar com a inclusão. Por mais que as escolas tenham boa vontade, a equipe pedagógica precisa do acompanhamento de um profissional especializado e experiente no dia a dia da sala de aula. A sala de recurso é muito importante, porém, é fundamental ter um professor experiente e com disponibilidade para um trabalho paralelo e não substituto. Este professor deverá estar alinhado com os objetivos da sala de aula a qual o aluno pertence. Outro procedimento que auxiliará neste trabalho é a adaptação da grade curricular, a qual deverá ser feita, aluno por aluno, uma vez que as necessidades são diferentes. A coordenação, junto com seus professores, deverá ter muito claro quem é o este aluno, o que ele precisa, como ele aprende e quais suas dificuldades. Outro fator que acrescento para facilitar o processo é lembrar que todas as escolas deverão solicitar um laudo médico e psicológico determinando qual a deficiência/dificuldade desse aluno. Uma vez com o laudo, a escola terá melhores condições de atendê-lo, pois poderá buscar auxílio junto a profissionais da área onde obterão diretrizes para o trabalho.

Direcional Escolas – Você recomendaria acompanhamento maior dos pais em relação ao trabalho que está sendo desenvolvido pela escola?

Márcia Icléa – A escola nunca obterá sucesso com a inclusão se trabalhar sozinha. É fundamental a presença dos pais, mas, para isto a escola deverá ser transparente com as famílias. Ser transparente quanto às possibilidades do aluno, ao trabalho que será desenvolvido, ao interesse da escola pela aprendizagem, pois somente assim os pais se sentirão seguros e confiarão na escola. Quanto mais a escola envolver as famílias esclarecendo-as, mostrando caminhos e apontando as conquistas, mais conseguirá a parceria tão almejada.

Direcional Escolas – Você acredita que seja indispensável o suporte de instituições Especializadas ao trabalho das escolas de ensino regular?

Márcia Icléa – Indispensável não. Porém algumas instituições desenvolvem trabalhos pedagógicos muito bons, então, a experiência é sempre válida. Com o advento da inclusão, as instituições especiais perderam alunos e nem sempre se especializam na área acadêmica e sim, mais no social da criança.

Direcional Escolas – Um recado final?

Márcia Icléa – A inclusão ainda é uma situação muito controversa e discutida. Percebo que as escolas (mais as privadas do que as públicas) estão em busca de conhecimento e soluções para o dia a dia. Cada uma delas ainda procura resolver o seu problema e não o processo da inclusão como um todo. A lei, embora realista, deixa as escolas numa “saia justa”, quando diz que  todos os alunos devem ter acesso ao ambiente escolar. Porém, não subsidia as escolas dando caminhos de como fazer isto. Então, o “deve fazer” fica bem distante do “como fazer”, gerando inseguranças, preocupações e até mesmo medo de assumirem este novo desafio. Quanto aos alunos, o convívio é perfeitamente possível em um ambiente de aprendizagem, desde que haja suporte para toda a equipe técnica pedagógica. As escolas, de modo geral, precisam preparar-se adequadamente, senão, ficarão “apagando incêndios” eternamente, os quais se intensificarão cada vez mais com o advento da inclusão. E isto promoverá cada vez mais o atraso na conquista da verdadeira inclusão. A inclusão, como conceito da lei, é mais voltada para a garantia do “frequentar a escola regular”, porém, o que deveria ser feito é o acolhimento deste  aluno  para que ele fique bem, sinta-se respeitado e participante do grupo do qual faz parte, independentemente das suas dificuldades. Acredito que a equipe escolar que esteja engajada no processo de inclusão, e que quer garantir o aprendizado dos seus alunos, deve sair da mesmice das reclamações e sair a luta em busca de cursos, palestras, livros, textos e tudo que puder obter, para estar cada vez mais preparada. Quanto aos pais, tenho tido vários contatos e percebo suas reações muito variadas. Uns têm a expectativa extremamente alta e equivocada quanto à capacidade dos filhos, outros não se interessam pelo aprendizado, julgando-o desnecessário, outros ainda não acreditam na capacidade de aprender do filho, e alguns confiam na escola, valorizando todas as conquistas do filho. Com a lei da inclusão, muitos pais colocam seus filhos na escola com a esperança de que ela os transformará numa criança normal, como se a escola tivesse o poder de sanar todas as dificuldades que a criança apresenta. Porém, quase ninguém diz a estes pais a realidade de tudo o que o filho vai necessitar para que a aprendizagem se concretize. E mais, não informam que esta criança talvez não consiga aprender tudo, porém, com a parceria família/escola fazendo um trabalho bem feito e dedicado de ambas as partes, a criança poderá atingir seu potencial máximo de desenvolvimento.

Márcia Icléa Bagnatori é mestre em Educação pela Universidade de São Paulo, pedagoga, psicopedagoga, pós-graduada em gestão de pessoas e especialista em Educação de Deficientes Mentais. Ministra aula de Didática do Ensino Superior na pós-graduação da Faculdade Paulista de Serviço Social, é assessora pedagógica do Sistema Anglo de Ensino, além de palestrante em Congressos de Educação. Capacita professores das redes municipais de ensino do estado de São Paulo e das escolas particulares. Atuou como Coordenadora Geral da ADID – Associação para o Desenvolvimento Integral do Down; da APOIE- Associação para Profissionalização, Orientação e Integração do Excepcional; e da Instituição Beneficente Nosso Lar e da Estação Especial da Lapa. Desenvolveu, implantou e acompanhou vários projetos pedagógicos para escolas inclusivas. Autora do livro: Projetos Especiais para Crianças Maravilhosas, Editora Art Ciência, SP, 2010. Mais informações: miclea@ig.com.br

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