Fevereiro 1, 2014

A Educação diz a que veio? (Parte 2 / O uso ou não de bonés)

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No artigo anterior fiz algumas provocações, dentre elas, aquela que irei explorar neste texto: os alunos podem ou não usar bonés? Tema que tanto se discute em nossas escolas sem que se chegue a um consenso.

Conforme dito no artigo anterior, um novo mundo surge e com ele novos alunos e demandas entram nas escolas, sem pedir licença, nos colocando questões como esta do boné. Alguns devem estar pensando, esse assunto é tão secundário, diante de outros tantos que a escola deveria estar discutindo. Pode até ser, mas esse assunto ainda vem tomando o espaço em reuniões pedagógicas, capacitação de professores, em discussões entre os alunos, que questionam o sentido de não poder usar boné na escola.

Em vez de buscar uma resposta, pretendo continuar a provocar reflexões sobre a educação que estamos fazendo na escola atual, e que vem sendo alvo de questionamentos e discussões, não só por educadores, alunos e famílias, como pela sociedade de um modo geral.

Pensar o uso ou não do boné nos remete ao aluno adolescente, um sujeito em pleno período de transformações físico, emocional e social, momento este em que ele adquire o pensamento formal, que o torna mais questionador e irreverente, e que também oportuniza que ele levante hipóteses e discuta sobre elas, nesse período dificilmente ele aceita regras impostas, e no caso aqui, a proibição do boné. Esse adolescente poderia estar sendo provocado por educadores sobre a importância das regras.

Entendo o uso do boné por parte dos alunos como um escudo, seu “uniforme pessoal”, que o protege do olhar externo e também o conecta com seus pares. É sabido cada vez mais que crianças e jovens apresentam dificuldades em se expressar, principalmente no que diz respeito a colocar em palavras seus sentimentos. Ao adolescer, o jovem passa por um estranhamento, primeiramente com seu corpo físico, que parece vir desacompanhado do seu desenvolvimento emocional. Nas meninas o escudo muitas vezes vem em forma de moletons (geralmente também alheios ao uniforme escolar).

Dito isso, retorno à discussão do boné. Quando educadores proíbem seu uso, qual objetivo que está por detrás de tal decisão? O boné tem o poder de prejudicar o processo ensino-aprendizagem? Ou ele é motivo de desordem, na medida em que ele pode, sim, prejudicar o andamento da aula?

Ao indagar os educadores sobre o boné, escuto diversos relatos como: “eles começam a jogar o boné nos colegas e isso atrapalha a aula”; “eles escondem as colas dentro do boné”; “não conseguimos ver o rosto do aluno”; “muitos bonés somem e isso causa transtorno para as escolas, já que as famílias alegam que a responsabilidade é nossa”.

Partindo desses relatos, entendo que não existe um sentido claro para educadores e aluno sobre o uso ou não do boné, já que o mesmo não interfere no processo ensino-aprendizagem e sim na “ordem / desordem da sala de aula”, na condução da aula pelo professor, na participação ou não do aluno. O boné “afasta” os conflitos que podem surgir na sala de aula.

Penso o boné como um ótimo dispositivo para abrir espaço de discussões, gerar conflitos entre professores, alunos e pais e, portanto, trazer os conflitos, tantas vezes abafados, diante de “regras vazias” de sentido para a sala de aula. Crianças e jovens necessitam ser provocados para que possam aprender a conversar, gerir conflitos, respeitar diferenças de opinião e até mesmo coparticipar da construção das regras, que eles deverão seguir. A pergunta que não quer calar: O que queremos garantir com regras impostas de fora para dentro?

Pode parecer engraçado o que vou dizer, mesmo assim direi, vejo o boné como um convite ao diálogo entre educadores e alunos, já que ele é parte da realidade do aluno e, portanto, faz sentido para ele e vale a pena ser discutido. O que são regras? De acordo com La Taille (2006), “regras são formulações verbais precisas, que nos dizem com clareza o que devemos ou não fazer”.

Cabe refletirmos se as regras impostas pelas escolas irão garantir seu cumprimento e dizer a que vieram – “Tais regras contribuirão para ajudar a formar sujeitos melhores”. Há clareza em tantas regras impostas na escola? Talvez, estejamos fazendo um caminho contrário, e sem percebermos estamos ajudando a (des) formar uma geração que não reconhece o sentido de se construir regras, seguir normas, sofrer interdições, adiar satisfação, deparar com frustrações, quesitos básicos para ajudar na formação de alunos-sujeitos-cidadãos melhores que possam atuar na sociedade.

O uso do boné e a polêmica acerca dele são, em minha opinião, mais um sintoma a ser escutado e olhado por todos os envolvidos: educadores, pais e alunos. Ressaltando que o sintoma urgente da contemporaneidade é a permissividade. Para entender o que estou falando, basta abrirmos jornais, revistas e pesquisas, assistirmos jornais, novelas e programas veiculados a TV, e internet, para reconhecermos a impossibilidade demonstrada, até o momento, de se conjugar liberdade e responsabilidade entre crianças e jovens que estão frequentando nossas escolas.

Em vista disso, acredito como educadora e psicanalista entusiasmada e confiante, que a educação requer novas discussões e interlocuções acerca de suas regras, normas, valores e crenças e finalmente dizer a que veio.

Seguir regras requer coparticipação, crianças e jovens devem implicar-se em sua elaboração e aplicação. Reconhecê-las como necessárias à convivência humana me parece essencial para uma educação que propõe uma relação com o saber, conforme nos aponta Charlot (2000): “Toda relação com saber é também relação com o mundo, relação com os outros e relação consigo”.

Refletir sobre o uso do boné nos remete a perguntar: Qual o sentido das REGRAS para uma geração que pode “quase tudo”? Educar é provocar em nossos alunos sua própria relação com o saber, que requer ultrapassar a tríade prescrita – mandar /fazer /cumprir. Passar do propor ao compor: é nessa composição que existe uma possibilidade para a educação!
Referências

CHARLOT, B. Da Relação com o saber. Elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.

LA TAILLE, Y. J.J.M.R.(1996). “A indisciplina e o sentimento de vergonha”. In: AQUINO, J.G. (org.): Indisciplina na escola: Alternativas teóricas e práticas: São Paulo: Summus

Por Jane Patricia Haddad *

jane*Jane Patricia Haddad é pedagoga, com especialização em Psicopedagogia, Docência do Ensino Superior e Psicanálise. Atuou por mais de 20 anos em escolas como professora, coordenadora pedagógica e diretora, é consultora institucional e conferencista. Autora dos livros: “Educação e Psicanálise: Vazio existencial” e “O Que Quer a Escola: Novos Olhares resultam em Outras Práticas”, ambos publicados pela editora Wak, do Rio de Janeiro. Atualmente cursa o Mestrado em Educação na Universidade Tuiuti no Paraná , onde seu tema de pesquisa é a Indisciplina Escolar.

Mais informações: janepati@terra.com.br

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