Fevereiro 3, 2014

Quantidade não é qualidade

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“Frequentemente, nos deparamos com resultados pífios de nossos jovens em avaliações de larga escala nacional. Em que momento esse acúmulo de defasagens será sanado? Será isso possível?”

Tenho insistido na importância da qualidade como condição para o avanço da educação. Tenho também mencionado algumas pesquisas e depoimentos internacionais para demonstrar que, apesar das diferenças culturais e geográficas, podemos aproveitar as boas práticas pedagógicas como desencadeadores de discussões e reflexões para tomada de decisões na área educacional. Ainda, saliento que quantidade não significa necessariamente qualidade, aquela pode ser o primeiro e importante passo para o alcance desta, desde que se siga um gerenciamento muito rigoroso que garanta o aprimoramento de cada etapa do processo a ser implantado.

Parâmetros externos

De acordo com relatórios internacionais, os países que mais cresceram em termos de qualidade no sistema educacional investiram no desenvolvimento profissional docente e tornaram a profissão objeto de desejo na sociedade. Um exemplo disso é a Coreia do Sul. Nesse sentido, o país atraiu os melhores egressos do Ensino Médio para a carreira acadêmica. Essas nações possuem, em sua maioria, professores com alto desempenho, que lançam desafios intelectuais e geram altas expectativas para o grupo.

Independente do nível socioeconômico, todos podem aprender. Esse deveria ser o pressuposto. Porém, isso só é possível quando temos um docente que vai além de sua formação básica, acadêmica. Um professor precisa, entre outras habilidades, conseguir inter-relacionar os conteúdos com situações atuais que gerem algum significado para os alunos. Ninguém dá aquilo que não tem. Nessa perspectiva, a formação inicial do professor e seu desenvolvimento profissional continuado são considerados estratégicos e estão atrelados ao resultado esperado na educação básica.

Dados apresentados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2010) apontam que alguns fatores tidos como essenciais não são determinantes para bons resultados, como a porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) do país direcionada à educação. No PISA 2009 (Program for International Student Assessment), os resultados mostram que não há relação direta entre investimento e qualidade. Os investimentos são importantes, porém, mais importante é o uso que se faz deles e as estratégias para o acompanhamento dos resultados (Observe no quadro abaixo).

Pontuação média 

Porcentagem do PIB em educação 

Finlândia 

543 

5,9 

Brasil 

401 

5,2 

Canadá 

547 

4,9 

Alemanha 

510 

4,5 

Japão 

529 

3,4 

Hong Kong 

546 

3,3 

Cingapura 

543 

2,8 

OCDE 

496 

5,2 

Fonte: OCDE (2010)

Quadro da docência no Brasil

Pensando no cenário brasileiro, temos 2.039.261 milhões de professores (MEC, 2011). De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC), Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Diretoria de Tratamento e Disseminação de Informações Educacionais (DTDIE), a situação ainda é preocupante. Embora seja obrigatório ser graduado em Pedagogia para dar aulas a crianças de Educação Infantil (3 a 5 anos) e Ensino Fundamental I (6 a 10 anos), e ter uma Licenciatura para lecionar aos jovens do Fundamental II (11 a 14 anos) e Ensino Médio (15 a 17 anos), grande porcentagem dos docentes não tem curso superior.

Na Educação Infantil, 48,2% dos professores não são graduados na profissão; no Ensino Fundamental I, a porcentagem é de 37,6%; no Ensino Fundamental II, 20,8% dos professores não estão adequadamente qualificados; e, no Ensino Médio, 9% dos atuais educadores, pela regra, não poderiam dar aulas. Situação pior encontra-se nas regiões Norte e Nordeste, demonstrando a necessidade urgente de um investimento na equidade de nosso sistema educacional.

A população brasileira, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 190.755.799 (2010). Em idade escolar, são 45.364.276 (23,78%). A taxa de analfabetismo de 10 a 14 anos é de 1,9%. Na faixa dos 15 ou mais anos de idade, a porcentagem de analfabetos é de 8,6%. Além disso, 13% das crianças (10 a 14 anos) está com mais de dois anos de atraso escolar (2009). (Fonte: PNAD/IBGE)

Recentemente, foi divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Esse medidor varia de 0 a 1 – quanto mais próximo de 1, melhor – e é composto por três indicadores: vida longa e saudável (longevidade), acesso ao conhecimento (educação) e padrão de vida (renda). Em duas décadas, o Brasil cresceu 47,5%. Entre os três indicadores que compõem o IDHM, o que mais contribuiu para a pontuação geral do Brasil em 2013 foi o de longevidade, seguido por renda e educação.

O IDH da Educação

Dos 5.565 municípios brasileiros, somente cinco – Águas de São Pedro (SP), São Caetano (SP), Santos (SP), Vitória (ES) e Florianópolis (SC) – são classificados como de “muito alto desenvolvimento” em educação.  Por outro lado, quase 30% das cidades brasileiras têm IDH “muito baixo” no mesmo quesito.

Nas regiões Norte e Nordeste, mais de 90% dos municípios estão nas faixas de classificação tidas como “baixa” e “muito baixa” de Desenvolvimento Humano, resultado que pode ser também justificado pelo quadro de docentes sem Ensino Superior. Se considerarmos Educação Infantil e Ensino Fundamental I, mais de 50% dos docentes estão nessa situação.

No Sul e no Sudeste, o cenário é bastante diferente: mais de 50% dos municípios apresentam IDHM dentro da margens consideradas “média” e “alta”.

Apesar de a educação ter o índice mais baixo dos três indicadores, foi o que mais cresceu nos últimos 20 anos (128%).  Segundo o PNUD, esse avanço é motivado por uma maior frequência de jovens na escola (2,5 vezes mais que em 1991). Ou seja, ainda estamos distantes do crescimento em função do avanço da aprendizagem efetiva dos nossos jovens. Temos mais alunos frequentando as escolas, o que é um aspecto muito importante e que pode ser considerado um primeiro passo rumo à qualidade. Porém, não conseguimos oferecer um padrão elevado de educação. Demoramos 20 anos para passar do patamar “muito baixo” para “médio” e, ainda assim, em função do fluxo.

A educação é reconhecidamente o caminho para o desenvolvimento do País e, ao mesmo tempo, o grande entrave para que o Brasil avance qualitativamente. Frequentemente, nos deparamos com resultados pífios de nossos jovens em avaliações de larga escala nacional. Em que momento esse acúmulo de defasagens será sanado? Será isso possível?

É preciso lutar por uma concepção de educação na perspectiva da qualidade nos campos da formação do professor, do currículo e do saber docente, dada a complexidade de que se reveste a realidade educacional hoje.

Por Suely Nercessian Corradini*

 
SUELY-NERCESSIAN-CORRADINI
Suely Nercessian Corradini é diretora pedagógica do Colégio Vital Brazil, na zona Oeste de São Paulo. Possui graduação em Letras e em Pedagogia, mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e doutorado em Educação pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, com o tema “Indicadores de qualidade em educação: um estudo a partir do PISA e da TALIS”.

Mais informações: www.vitalbrazilsp.com.br

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