Março 11, 2014

Afinal, quem não tem problemas também precisa da escola?

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Outro dia, conversando com minha mãe, lembrava os tempos de colégio. Com a memória ainda muito boa, no auge dos quase 81 anos, ela recordava dos ótimos resultados e da tranquilidade que foi minha vida escolar. Nenhuma nota abaixo da “média para passar direto” e, todo ano, férias antecipadas. Ressaltei a grande participação dela no processo, pois, desde cedo, sempre me incentivou a ler e a estudar. Comprava gibis uma vez por mês – sempre que ia ao banco receber seu salário de pensionista da Companhia Paulista de Estradas de Ferro -, gastava o pouco que tinha nos comprando pequenas enciclopédias e livros, e transmitia-nos um respeito muito grande pelos nossos professores. A escola na qual estudei dos 10 aos 17 anos sempre fora a dos seus sonhos – um colégio estadual, “o melhor da cidade”, segundo ela -, e tive até de prestar um vestibular (o “exame de admissão”) para poder cursar ali os antigos ginasial e colegial. “Eu nunca precisei me preocupar com você, João!”, dizia ela, saudosa e orgulhosa. E, como sempre acontece em reuniões familiares, não deixei que apenas rasgações de seda dessem o tom. Criei um clima! “Na verdade” – disse – “você nunca visitou minha escola. Não conhecia nenhum professor meu. Não sabia quem eram diretores, orientadoras etc. Eu era um menor abandonado.” Falei provocando-a, do jeito que sei que ela gosta, mas sua resposta fez mais do que colorir ainda mais aquela tarde em família.

“Nunca fui à sua escola, mesmo! E nem precisava ir. Você era um dos melhores alunos! A troco de quê eu deveria ir à escola?”

Na certa, pessoas menos agitadas ou  encrenqueiras que eu ouviriam tal comentário e sorririam. Afinal, há uma verdade clara e incontestável nisso. Por que pais devem ir à escola se os filhos já são bons alunos e não têm problemas? Porém, como dizem alguns amigos, gosto de “ver pelo em ovo”. E, apesar de não ter sido o desmancha-prazeres daquela tarde, desconfio até hoje que neste ovo pode haver uma cabeleira invisível. Afinal, não há, de fato, algo de absurdo nessa doce e sóbria “verdade”?

Se não, vejamos. As escolas, sem exceção, professam diariamente seu papel de propagadoras e defensoras do conhecimento e da cultura. Hoje, dificilmente visitaremos algum colégio sem ouvirmos, pelo menos uma vez – de coordenadores e diretores -, que a “excelência acadêmica” é uma das metas da instituição. A maioria das escolas participa de olimpíadas de Matemática, Física, Astronomia… Há uma corrida desenfreada pelos primeiros postos nos rankings de ENEM, Fuvest etc. Quando se investiga o melhor lugar para colocar os filhos, o critério “escola forte”, se não é o que prevalece, pelo menos na maioria das vezes, é o que mais seduz e encanta. E minha mãe sonhava, naqueles confusos anos sessenta em Rio Claro, que seus filhos bem que poderiam estudar naquela “excelente” escola. Preparou-me para ser “um dos melhores”, assim como a instituição se organizou para captar “os melhores”. Cada um correndo atrás e buscando a seu modo, colégio e família trabalhavam pelo mesmo objetivo: criar pessoas e mundo melhores! Talvez, a partir de algum vislumbre em que intelectos preparados, criativos e abertos fossem capazes de mudar aquela discrepante e injusta realidade, queriam plantar algo muito, muito grande. Porém, realizado o feliz enlace, o que aconteceu? Os parceiros se separaram quase que definitivamente. Os sonhos se desgarraram. Ou, talvez, o sonho que envolvia a todos se espatifou. Eu fui o aluno que pude ser, estudando na escola que parecia não querer mais nada de mim, apenas que não lhe criasse problemas. E minha mãe, realizada, acreditava que o “excelente colégio”, por si só, realizaria o milagre.

Hoje, observando escolas, alunos e famílias, percebo que a velha sonata apenas ganhou novos aparatos. O que era sólido está ainda mais tenaz – só que, agora, mais maleável e difícil de romper. Escolas e famílias ainda não conseguem encontrar o ponto em que o sonho escorregue para a epopeia. Enquanto estas querem que seus filhos sejam felizes e não lhes deem dor de cabeça, nas instituições escolhidas espera-se que os mesmos não criem problemas. Afinal, quando isto não acontece, é trabalho na certa. E, por falar em trabalho, há uma carta ainda mais importante neste jogo.

Como acontecia na minha Rio Claro, nos anos sessenta e setenta, vejo que, hoje, as energias são gastas quase da mesma maneira – talvez de um modo mais exacerbado que antes -, quando o assunto é escola. Horas e horas de reuniões pedagógicas e educacionais; entrevistas com famílias; conversas com psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, advogados e até jornalistas sensacionalistas; ameaças a professores e, muitas vezes, tempo extra em audiências judiciais. Cotidiano agitado para quem vive na gestão ou na sala de aula. Cada dia é mais angustiante que os anteriores. Porém – e, aqui, a constatação pouco alvissareira -, quase sempre, esses esforços são endereçados aos alunos que têm ou que causam problemas.

Jamais questionarei o direito de todos os alunos à boa educação. Sempre trabalhei com muito gosto e entusiasmo para que as coisas sejam o mais equilibradas possível. Problemas devem ser resolvidos, para que tenhamos Educação para todos. Porém, parece que o tempo e os investimentos ainda não levam em consideração os melhores alunos, muito menos os alunos excelentes. Em mais de trinta anos, como professor ou gestor, já perdi a conta das vezes em que discuti durante horas sobre um único aluno – na maior parte das vezes, o tema era indisciplina extrema; e, quase sempre, os resultados foram frustrantes. Não me lembro – a não ser quando me reunia fora do expediente, voluntariamente e com gente disposta a sacrificar seu tempo – de termos feito grandes conversações para tratar de grupos de alunos que superassem expectativas e justificassem algum tipo de tratamento especial (que visasse, talvez, atingir ainda mais excelência). Poso estar sendo exagerado – e, de fato, sou conhecido por sê-lo -, mas a escola, nos últimos cinquenta anos, com as mais nobres intenções e os maiores cuidados financeiros, parece não ser o melhor lugar para “quem não tenha problemas”. Sendo ainda mais direto, o nosso modelo de escola parece não pensar em cuidar de verdade, com atenção e minúcia, daqueles que poderiam ir além do que se espera. Na maioria das escolas, parece que enquanto cada matrícula ameaçada aterroriza mantenedores e gestores, bons e excelentes alunos são muitas vezes ilustres desconhecidos – pelo menos, são os menos lembrados nas reuniões. E as famílias de tais alunos vão, aos poucos, se esquecendo também de que eles poderiam brilhar muito mais. Resumo da ópera: como sugeri acima, um divórcio de sonhos pode transformar espíritos brilhantes em corpos acomodados. Triste, não? Mas, calma! Posso estar completamente errado…

Bem, para quem ainda está pensando na conversa com a minha mãe, aqui vai o desfecho. “Mas, quem falou que eu nunca fui lá?” – disse ela, vitoriosa, preparando o golpe final – “Fui te pegar muitas vezes, de guarda-chuva na mão. Muitas vezes, que até perdi até a conta! Lembra? Eu ficava embaixo do toldo da lojinha de frente da escola e você corria para me encontrar”.

 
joao-luiz-muzinatti
Prof. João Luiz Muzinatti é Mestre em História da Ciência. Engenheiro, é também professor de Matemática, Filosofia e Ciências em nível de graduação, pós-graduação, e Ensino Fundamental e Médio.
Atua ainda como diretor do ABC Dislexia (com atendimento a alunos, consultoria, cursos e palestras em Educação), além de consultor do MEC (Ministério da Educação) em Filosofia para a TV Escola – programas “Acervo” e “Sala de Professor”. Foi diretor do Colégio Santa Maria, em São Paulo; coordenador pedagógico do Colégio Franciscano Pio XII (também em SP); e diretor do Espaço Ágora – Terapêutico e Educacional.
Trabalhou como engenheiro daFlender Latin American – consultor no Chile, e escreveu e lançou o livro de poesias “Inventário de mim” (Ed. Scortecci) .
Mais informaçõesjoao@abcdislexia.com.br ; www.abcdislexia.com.br 

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