Maio 6, 2014

Escola: ainda é possível que acreditemos nela?

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Outro dia, discutindo com amigos sobre Educação e, mais precisamente, sobre a Escola, deparei-me com uma dúvida inquietante e até, por que não dizer, trágica. Ocorre que, em meio a afirmações – absolutamente pertinentes – de que a Escola ajuda a reproduzir uma situação de exclusão e que seus meios fazem com que se veja o conhecimento como algo muito mais útil à participação social cega do que crescimento humano de fato, fomos provocados pelo seguinte desafio: “alguém, aqui, teria alguma argumentação a partir da qual possa defender a continuidade da instituição Escola?”

Em face de tal questionamento, e após argumentações no sentido de corroborar a tese de que a Escola parece ter mais pontos negativos, hoje, do que positivos, ficamos todos em silêncio. Perplexos e quase que arrependidos pelas barbaridades pronunciadas minutos antes, cada qual procurou – num silêncio particular e dramático – rever o que fora dito, ou, pelo menos, tentar reconsiderar certos aspectos das assertivas anteriores. De minha parte, não foi diferente, mas talvez tenha achado uma saída.

Antes de qualquer consideração, é preciso que se diga claramente, sem medo de ser abusado, que a instituição Escola, hoje, realmente parece ter colocado o conhecimento num nível muito inferior – perante a percepção das pessoas – ao que já ocupou no passado. Saber, em tempos idos, já representou muito mais do que estar apto para tornar-se consumidor ou profissional especializado, como se pensa nos nossos dias. A pessoa dotada de repertório e reconhecidamente sábia não despontará, hoje, nem merecerá grandes elogios. Isto se não tiver transformado seu conhecimento em realização comerciável ou não ostentar grande sucesso – de preferência financeiro – a partir de sua distinção intelectual. François Englert e Peter Higgs, ganhadores do Nobel de física em 2013 pela descoberta da “partícula de Deus”, certamente não vêm merecendo tão grandes ovações quanto o célebre Steve Jobs pelo seu brilhantismo e inteligência. E, se observarmos atentamente, a Escola, apesar de professar a importância do conhecimento em si, cria inúmeros malabarismos para que, visando uma vantagem qualquer lá na frente, o aluno possa ver alguma utilidade em seu estudo. Isto, sem falar na maneira comercial como se promove o interesse e o compromisso dos estudantes. (Uma curiosidade: há pouco, quando digitei os nomes dos físicos, meu corretor sublinhou as palavras, indicando erro; mas quando mencionei o criador da Apple, bem como esta marca, não houve nenhum aviso para possível correção.)

Entretanto, apesar de representar, de maneira camuflada e quase piedosa, um enquadramento ao sistema, a Escola ainda é a única referência (que temos) em termos de busca e apropriação do saber. Não poderia ser, então, viável, ainda que temerário e arriscado, conservá-la? Pois, após uma breve reflexão, respondi que sim. E explico por que.

Inicialmente, é preciso que me confesse ser pessoa para quem Adão, Eva e a criação em seis dias não fazem nenhum sentido. Prefiro, mesmo, a explicação darwinista para o surgimento e desenvolvimento do mundo, até chegar ao homem. E à tal teorização, válida para todas as células e todos os organismos vivos, peço autorização para usá-la também na reflexão sobre o organismo Escola.

Para quem já se aventurou pela história da educação, é certo que a chamada “educação formal” – já que a informal é a que acontece, por exemplo, de pai para filho, sem uma sistematização intencional – surge quando, nos primórdios, os donos de tudo percebem que devem instruir seus descendentes para que não percam as vantagens e as propriedades materiais para aventureiros de plantão. Então, uma série de técnicas de ensino, postas em funcionamento dentro de um ambiente determinado e favorável, acabam sendo desenvolvidas e utilizadas para que os herdeiros de propriedades e postos de comando possam incorporar o conhecimento. Este os manterá na condição de proprietários de tudo e o risco de perder tais vantagens será mínimo. Então, falando a língua darwinista, o DNA da primeira escola era uma molécula de exclusão.

Com o passar do tempo, enfrentando intempéries, cataclismos e moléstias de toda espécie, o organismo Escola vai sendo testado e, graças a inúmeras mutações, transformando-se e sobrevivendo na história. Outras características, adaptadas a cada época e a cada ciclo de poder particular, vão sendo incorporadas e passam a constituir a forma e a fisiologia da Escola. Através dos tempos, transforma-se em erudita; noutras situações volta-se a interesses guerreiros; há momentos em que vislumbra sociedades novas, melhor estruturadas. Associa-se a impérios, religiões e até a movimentos artísticos, porém seu DNA ainda carrega o design básico da estrutura inicial: o sentido de separação entre poder e sujeição. E, até hoje, serve – das maneiras mais refinadas e, em alguns casos, até com linguagens libertárias – à manutenção do poder. Seja em ditaduras de todos os lados ou em sistemas liberais, saber de qualidade é privilégio de poucos – haja vista o salário de fome da maioria dos professores, onde as exceções aparecem justamente nas escolas voltadas à elite. E mesmo para estas, os saberes se dirigem sempre ao que é útil. E entenda-se por utilidade aquilo que torna as pessoas mais incorporadas e identificadas com a realidade posta. Então, por que razão apoiar a continuidade da instituição viva chamada Escola? Como ficaria a tão sonhada emancipação humana?

Acontece que o tamanho das mutações parece vir determinando a evolução das espécies. Quanto mais marcantes as transformações, mais distintos tornam-se os seres. E no caso das adaptações dos seres vivos à natureza, as tais variações climáticas, se não determinam as mutações, escolhem quais serão aqueles que devem continuar aí pela vida. No caso da Escola, já se sabe de muitas experiências e inovações em curso. A maioria delas, entretanto, ainda não emplacou justamente por não estar em fase com a utilidade que a sociedade de consumo impõe ao conhecimento. Mas, as mutações já estão pipocando e a “natureza” prepara-se para selecionar os mais aptos. E, em se tratando das escolas, o que se vê é uma “natureza” por vezes inóspita e confusa. Insubordinações, rebeldia, questionamentos acerca dos porquês de tudo que se faz, violência. Nossa sociedade se transforma num ritmo jamais sonhado em outros tempos e os estudantes já são outros. Comunicação, modelos de felicidade, família, estado e religião já não são mais vistos como antigamente. Pode ser que o poder esteja mudando de cara, sem que o percebamos. Ou, pode ser que mutações assustadoras estejam já consolidadas e estejam apenas esperando pelo momento em que serão as únicas aptas a sobreviver. Pode ser . . . pode ser qualquer coisa. Porém, não custa nada esperar um pouco mais para ver aonde vai dar tudo isso. Penso, sim, que não vale a pena desistir – justo agora – da Escola. Quem sabe, ela não nos surpreende e se humaniza de fato?

Assim como, depois de bilhões de anos, uma célula ínfima transformou-se em humano, podemos vislumbrar – por que não? – que aquele pequeno organismo, que segregava e excluía, poderá se transformar radicalmente em vetor de inclusão. Repito: por que não? A verdade é que o “ambiente” já exige outra Escola. As transformações são imensas e o tempo é curto. Então, resta apostar que mutações radicais já estejam sendo engendradas – ou até já estejam consolidadas e a espera de começar a reinar. Resta apostar em tudo que se construiu até agora. A matéria prima já está posta. É preciso confiar e apostar em possíveis arranjos molecular e celular que construam um ser capaz de sobreviver e se reproduzir. Resta confiar e dar mais uma chance à Escola.

 
joao-luiz-muzinatti
Prof. João Luiz Muzinatti é Mestre em História da Ciência. Engenheiro, é também professor de Matemática, Filosofia e Ciências em nível de graduação, pós-graduação, e Ensino Fundamental e Médio.
Atua ainda como diretor do ABC Dislexia (com atendimento a alunos, consultoria, cursos e palestras em Educação), além de consultor do MEC (Ministério da Educação) em Filosofia para a TV Escola – programas “Acervo” e “Sala de Professor”. Foi diretor do Colégio Santa Maria, em São Paulo; coordenador pedagógico do Colégio Franciscano Pio XII (também em SP); e diretor do Espaço Ágora – Terapêutico e Educacional.
Trabalhou como engenheiro daFlender Latin American – consultor no Chile, e escreveu e lançou o livro de poesias “Inventário de mim” (Ed. Scortecci) .
Mais informaçõesjoao@abcdislexia.com.br ; www.abcdislexia.com.br 

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