Quando nossos pais nos matricularam na escola havia uma certeza: a de que aprender os conteúdos nos traria a garantia de oportunidades que nossos antepassados, em sua maioria, não tiveram. E a escola, por sua vez, sabia do seu compromisso em dar acesso a informações e conhecimentos que não estariam acessíveis às crianças e adolescentes, a menos que frequentassem os bancos escolares.
Com o passar do tempo, a escola teve seu papel ampliado. Hoje sabemos da importância de uma formação integral, do direito que cada estudante tem a cuidados que vão muito além do conteúdo acadêmico. Apesar de assumir com todo o comprometimento o desafio de formar cidadãos para um futuro cada vez mais incerto, seguimos em um constante descompasso em relação às expectativas que a sociedade cada vez mais coloca na escola. E não há dúvida de que aqueles que atuaram em qualquer setor do dia a dia escolar nos últimos anos levarão para sempre o sentimento de parecer estar sempre aquém do que era esperado pelas famílias, não importa o quanto de trabalho ou esforço tenha sido colocado no trabalho.
Diretores e mantenedores vivem o paradoxo diário de educar para a vida, enquanto grande parte das famílias busca eliminar qualquer desafio que possa gerar desconforto para seus filhos. Quanto mais se vende a ilusão da felicidade permanente, menos nossas crianças e adolescentes são expostos a situações que os ajudarão a reunir os elementos para que um dia possam realizar aquilo que, para eles, representar a realização pessoal e profissional.
A gestão escolar continuará com desafio de, no equilíbrio entre acolhimento e conhecimento embasado, reafirmar um princípio simples e sustentado pela ciência: felicidade não é ausência de esforço, tampouco inexistência de frustração. Felicidade, de acordo com a definição do curso com maior fila de espera em todo o mundo, a graduação em Ciência da Felicidade, oferecida pela Universidade de Harvard, é a soma de três elementos: alegria, satisfação e propósito. O ponto em comum entre esses três componentes da felicidade é: nenhum deles é permanente ou linear. A alegria se reconhece porque há tristeza; satisfação nasce da superação; propósito evolui com o desenvolvimento, do sonho da infância ao projeto de vida na adolescência. Cada um desses elementos, essenciais para a felicidade, precisa ser constantemente recriado, reconstruído, a partir das mudanças pelas quais passa cada pessoa, em qualquer e em todas as fases da vida. A alegria pressupõe compartilhamento, companhia e consciência do momento vivido. Sem desafios a serem enfrentados e sem o esforço para superá-los, jamais se experimenta o sentimento de satisfação. E o propósito, assim como os sonhos que tem uma criança e os projetos que fazem os adolescentes para o futuro, é sempre renovado, conforme amadurecemos ou atingimos objetivos almejados. Segundo Arthur Brooks, professor do curso de Ciência da Felicidade da Universidade de Harvard e autor do livro “Construa a Vida que Você Quer”, para sermos felizes, precisamos aceitar a tristeza em nossas vidas e aceitar que ela não é um obstáculo para a felicidade.
Dessa forma, quando a escola oferece desafios acadêmicos, sociais e físicos, não está “dificultando” a vida do aluno: está construindo as condições para que cada criança ou adolescente possa construir a felicidade que os pais desejam que alcancem. Retirar toda frustração da frente das crianças e adolescentes, por melhor intenção que haja, aumenta o campo em que tendem a brotar ansiedade e depressão: sem enfrentar desafios, não há satisfação, nem desenvolvimento de competências para lidar com a vida real.
Há ajustes críticos que precisam ser feitos fora da sala de aula, na rotina da família, e que impactam diretamente a aprendizagem e a capacidade para superar desafios que são parte da vida de um estudante. Fatores que eram parte da vida de uma criança ou adolescente quando nós, adultos de hoje, éramos os estudantes, mas que se perderam na correria da vida moderna. Ajudar para que as famílias tenham essa informação e possam garantir, dentro de casa, esses ajustes, é um passo em direção às habilidades que ajudarão para que seus filhos sejam mais felizes. Esses fatores são: movimento como parte do dia a dia dos filhos, noites completas de sono e momentos em que o estudo, a escrita e a leitura aconteçam em casa, como parte do dia a dia em família. A neurociência cognitiva é clara: atividade física regular aumenta neurogênese e modula neurotransmissores, refinando atenção, memória e regulação emocional. Rotina saudável de sono literalmente “limpa” e prepara o sistema nervoso para aprender. E retomada dos conteúdos estudados na escola ajudam a transformar informação em conhecimento e a consolidar a memória. Em contraste, o cotidiano sedentário e a “dopamina sem esforço” das telas empobrecem o preparo, confundindo prazer imediato com felicidade — e minando foco, autorregulação e progresso.
A escola não é o empecilho na felicidade com que sonhamos para nossas crianças e adolescentes. A escola é o parceiro mais próximo da família na pavimentação do caminho para que cada um possa fazer seu mundo mais feliz.
