Recentemente, tive a oportunidade de palestrar em Portugal sobre os desafios da educação na era da tecnologia. Em encontros com educadores, gestores e profissionais da área, uma questão apareceu de forma recorrente: nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, começamos a encontrar sinais preocupantes de que nossos alunos estão aprendendo menos. Voltei ao Brasil com uma convicção ainda maior: discutir inteligência artificial na educação não é discutir apenas tecnologia. É discutir aprendizagem.
A OCDE deu um nome, ainda que indiretamente, a um fenômeno que merece nossa atenção: a possibilidade de confundirmos desempenho com aprendizagem. Seu Digital Education Outlook 2026 reúne evidências mostrando que estudantes com acesso à inteligência artificial generativa podem produzir trabalhos melhores sem necessariamente aprender mais. Quando a ferramenta é retirada, essa vantagem pode desaparecer e, em alguns estudos analisados, até se inverter. É o que tenho chamado de “ilusão da aprendizagem”: o aluno entrega, responde, produz e aparenta dominar determinado conteúdo, mas parte do esforço cognitivo que construiria aquele conhecimento foi terceirizada para a máquina.
E aprender exige esforço. Exige ler, interpretar, errar, tentar novamente, recuperar uma informação da memória, formular uma hipótese e sustentar um raciocínio. Se a tecnologia elimina sistematicamente essas etapas, podemos melhorar a qualidade aparente da tarefa e, ao mesmo tempo, empobrecer o processo que deveria acontecer dentro da cabeça do aluno.
Os dados mais recentes tornam esse debate ainda mais urgente. O PISA 2025, divulgado pela OCDE em setembro deste ano, registrou o menor desempenho médio da história da organização em leitura, matemática e ciências. Entre 2015 e 2025, os países da OCDE perderam, em média, 28 pontos em leitura e 22 pontos em matemática, quedas equivalentes, aproximadamente, a um ano e meio de aprendizagem em leitura e a pouco mais de um ano em matemática. E estamos falando também de países ricos, com infraestrutura, conectividade e recursos educacionais muito superiores aos brasileiros.
Talvez o dado mais inquietante esteja justamente na leitura. A OCDE identificou queda nas habilidades que se tornam ainda mais importantes em um mundo povoado por inteligência artificial: avaliar informações, relacionar diferentes fontes e pensar criticamente sobre aquilo que se lê. Também aumentou o número de alunos que fazem uma leitura apressada, respondendo rapidamente e errando. Não basta, portanto, colocar mais tecnologia nas mãos dos estudantes. Quanto mais sofisticada for a tecnologia, maior precisa ser a capacidade humana de questioná-la.
Portugal também oferece uma reflexão interessante sobre as telas. O país vem ampliando as restrições ao uso de celulares nas escolas, mas pesquisas com estudantes portugueses mostram que o principal ambiente de exposição às telas continua sendo a própria casa. Em um estudo realizado em Aveiro, por exemplo, apenas 39% dos alunos relataram permanecer menos de duas horas diante de telas em um dia típico de semana, e o tempo aumentava nos fins de semana. Isso ajuda a compreender por que retirar o celular da escola, embora possa reduzir distrações durante as aulas, não significa automaticamente uma redução equivalente da exposição total: o comportamento digital atravessa os muros da escola. Sem participação das famílias, corremos o risco de apenas deslocar o problema de horário e de lugar.
O próprio PISA reforça que o problema não é simplesmente “tecnologia versus ausência de tecnologia”. O uso moderado e pedagogicamente orientado pode contribuir para a aprendizagem. O problema aparece quando o recurso substitui atenção, esforço e compreensão. No PISA 2025, 46% dos estudantes dos países da OCDE disseram utilizar chatbots de IA semanalmente ou mais para ajudá-los a aprender. Ao mesmo tempo, mais de um em cada quatro relatou que colegas se distraem com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências.
É aqui que entra a responsabilidade dos gestores escolares. Não precisamos escolher entre uma escola tecnológica e uma escola presa ao passado. Precisamos escolher uma escola que saiba para que, quando e como usar tecnologia. Isso significa estabelecer protocolos claros para celulares e inteligência artificial, formar professores, envolver as famílias e, sobretudo, preservar momentos em que o estudante precise pensar sem auxílio digital.
Precisamos também recuperar práticas que talvez tenhamos abandonado cedo demais: leitura longa, escrita autoral, cálculo, memorização de conhecimentos fundamentais, discussão presencial, resolução de problemas, produção manual e tempo de concentração sem notificações. A IA pode ser excelente para questionar uma resposta, comparar argumentos, oferecer feedback ou ampliar uma investigação. Mas não deveria realizar justamente o esforço cognitivo que queremos desenvolver no aluno.
A grande pergunta para a escola contemporânea, portanto, não é se devemos usar inteligência artificial. Essa discussão já ficou para trás. A pergunta é: o que jamais deveremos terceirizar para ela?
