Talvez uma das perguntas mais urgentes da educação hoje seja: quanto do esgotamento emocional vivido por gestores e professores nasce dessa tentativa — muitas vezes inconsciente — de alcançar uma perfeição impossível?
Vivemos um tempo em que as demandas sobre a escola aumentam em velocidade exponencial. Espera-se que a instituição ensine conteúdos acadêmicos, desenvolva competências socioemocionais, acolha as diferenças, prepare para o futuro, cuide da saúde mental, dialogue com famílias para atender demandas tão diversas, adapte-se às novas tecnologias e, ainda assim, apresente resultados impecáveis. Tudo ao mesmo tempo.
Mas há um problema importante nesse cenário: novos desafios não serão resolvidos apenas com os conhecimentos que adquirimos na faculdade. A escola do presente exige algo muito maior. Exige exercitarmos o desaprender, para que possamos lidar com nossas próprias crenças, que muitas vezes nos levam a esquecer do valor imensurável que há em nossas experiências vividas.
Antes de tudo, nós, profissionais da educação, precisamos aprender sobre quem somos, como reagimos em situação de pressão, que recursos podemos usar para gerenciar situações de conflito. E tudo isso requer habilidades para a absorção de novos conhecimentos.
E talvez resida aí um dos maiores paradoxos da escola: ela é um ambiente riquíssimo em conhecimento, experiências e talentos, mas, ao mesmo tempo, encontra enorme dificuldade em criar uma cultura saudável de aprendizagem entre os próprios adultos que ali trabalham. Quantas vezes vemos resistências disfarçadas em frases como: “faço isso há anos” ou “se eu ensino, é porque já sei”. A verdade é que conhecimento e experiência não são a mesma coisa que abertura para aprender.
Por isso, muitas escolas investem em palestras, formações, cursos, reuniões pedagógicas, encontro de feedback e especializações — e ainda assim sentem que pouco muda na prática. O conteúdo inspira momentaneamente, mas, pouco tempo depois, a maioria retorna aos antigos padrões.
Isso acontece porque aprender não depende apenas da informação recebida. Depende da chamada capacidade de absorção: a habilidade de reconhecer, valorizar, assimilar e aplicar novos conhecimentos. E essa capacidade está profundamente ligada à forma como nos posicionamos diante do aprendizado.
Pessoas movidas pelo medo de errar tendem a rejeitar informações que ameaçam sua autoimagem. Tornam-se defensivas, rígidas, resistentes a críticas. Buscam proteger aquilo que já sabem, em vez de expandir possibilidades. Outras até desejam crescer, aceitam orientações e críticas, mas permanecem passivas — esperando sempre que alguém as conduza. Já as pessoas que conseguem unir iniciativa e desejo genuíno de desenvolvimento tornam-se verdadeiras “esponjas”: absorvem feedback, adaptam-se, experimentam, revisam práticas e seguem aprendendo continuamente.
E aqui surge um ponto decisivo para a gestão escolar: não existe cultura de aprendizagem onde existe culto à perfeição. O perfeccionismo não impulsiona excelência. Na maioria das vezes, ele paralisa.
Profissionais perfeccionistas tendem a cometer três erros frequentes: tornam-se obcecados por detalhes irrelevantes, evitam situações novas por medo de fracassar e se martirizam pelos próprios erros. Com isso, perdem energia emocional, criatividade e coragem para evoluir.
Na educação, esse peso é ainda maior. Há anos, muitos profissionais vivem em estado permanente de alerta — com o cérebro funcionando em modo de sobrevivência durante todo o dia. E, frequentemente, continuam emocionalmente conectados às tensões da escola mesmo fora dela. Não é sustentável.
Talvez esteja chegando o momento de aceitarmos algo profundamente libertador: educar com excelência não significa educar com perfeição. Excelência não é ausência de falhas. É a capacidade de continuar aprendendo apesar delas. Os melhores profissionais não são aqueles que nunca erram, mas os que conseguem discernir quais imperfeições são aceitáveis e quais realmente precisam ser transformadas.
Uma gestão escolar saudável talvez precise abandonar a ideia de “ser a melhor escola” para concentrar energia em algo mais concreto e humano: melhorar continuamente aquilo que realmente importa.
No fim do dia, duas perguntas podem valer mais do que qualquer ideal impossível de perfeição: Você se permitiu melhorar hoje? Você ajudou alguém a melhorar hoje? Se a resposta for “sim” para ao menos uma delas, talvez tenha sido um bom dia.
