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Estamos criando uma geração triste – e qual a responsabilidade da escola?

Se alguém ainda tinha dúvida de que estamos diante de uma crise silenciosa, a última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE, praticamente elimina qualquer espaço para negação.

Os números não são sutis. Eles são duros: três em cada dez adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos afirmam que se sentem tristes “sempre” ou “na maior parte do tempo”. E mais do que isso: uma parcela significativa relata já ter pensado em se machucar de propósito ao longo do último ano. E quase um em cada cinco adolescentes afirma sentir, com frequência, que a vida não vale a pena ser vivida.

Isso não é um episódio isolado. É um estado emocional recorrente. Quando a gente olha para trás, para edições anteriores da PeNSE, o quadro não melhora – ele se repete.

Não estamos diante de uma geração “mais fraca”. Estamos diante de uma geração mais exposta, mais pressionada e, muitas vezes, mais solitária. E existe um dado que escancara ainda mais a gravidade da situação: as meninas estão sofrendo mais.

Isso não pode ser ignorado. Isso precisa ser compreendido. Agora, o ponto mais importante e o mais negligenciado: esses dados não falam apenas de saúde mental. Eles falam de modo de vida. A própria PeNSE investiga fatores que ajudam a explicar esse cenário:

Ou seja, o sofrimento não nasce dentro do adolescente. Ele é construído ao redor dele. E aqui está o erro que a gente insiste em repetir: tratar saúde mental como um tema complementar na escola. Como se fosse algo para um projeto pontual, uma palestra eventual, uma campanha em datas específicas. Não é. Saúde mental hoje é estrutura. É base. É condição para aprender.

Um aluno emocionalmente fragilizado não sustenta atenção, não regula comportamento, não constrói vínculo com o conhecimento. E, em casos mais graves, não vê sentido em continuar.

O Brasil mede bem. A PeNSE é robusta, séria, representativa. Mas medir não resolve. A pergunta que precisa ser feita – e respondida – é simples: O que estamos fazendo com esses dados?

O que a escola pode – e deve – fazer na prática?

Não adianta um discurso bonito se a rotina continua a mesma. A escola precisa agir de forma concreta:

Porque, se a gente continuar olhando para esses números como quem lê um relatório, sem transformar isso em ação concreta dentro das escolas, das famílias e das políticas públicas, vamos repetir o padrão que já conhecemos tão bem: diagnosticar tarde demais.

Um ponto importante reforçado por “A Geração Ansiosa”, do psicólogo social Jonathan Haidt, ajuda a entender esse cenário. O autor mostra que a infância mudou radicalmente: menos brincadeira livre, menos interação presencial e mais tempo mediado por telas. Não é só uma questão de tecnologia, mas de substituição de experiências fundamentais para o desenvolvimento emocional. Quando a convivência real é trocada por validação digital, o impacto aparece exatamente onde estamos vendo agora: mais ansiedade, mais solidão e mais fragilidade emocional.

E quando se trata de saúde mental, tarde demais não é uma opção. Talvez o maior erro da nossa geração não seja a tecnologia, nem a velocidade, nem as mudanças sociais. Talvez seja ter todos os dados na mão… e ainda assim não agir na velocidade que a realidade exige.

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