Durante décadas, a grande preocupação das famílias era o excesso de televisão. Depois vieram os celulares, as redes sociais, os vídeos curtos e a hiperestimulação digital. Agora, silenciosamente, uma nova transformação começa a acontecer diante dos nossos olhos: crianças e adolescentes passaram a conviver diariamente com inteligências artificiais capazes de responder, escrever, resumir, criar imagens, interpretar textos e até oferecer apoio emocional.
E talvez essa seja a primeira vez na história em que o cérebro humano, ainda em desenvolvimento, convive com uma ferramenta que reduz drasticamente a necessidade do esforço cognitivo.
A pergunta que começa a preocupar pesquisadores, educadores e famílias não é mais se a inteligência artificial fará parte da vida das crianças. Ela já faz. A pergunta agora é: quais impactos isso pode causar na cognição, na aprendizagem, na criatividade, na tolerância à frustração e até na construção da identidade desses jovens? As pesquisas ainda são recentes, mas os sinais já começaram a aparecer.
Um levantamento da TIC Kids Online Brasil 2025 revelou que quase dois terços das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa em suas rotinas. Muitos usam para pesquisas escolares, resumos, redações e resolução de tarefas. Outros, inclusive, passaram a recorrer à IA para conversar sobre emoções e problemas pessoais.
Em sala de aula, os impactos já são percebidos por professores. Crianças menos tolerantes ao processo, adolescentes que desejam respostas imediatas e estudantes que apresentam dificuldade crescente de aprofundar reflexões, sustentar atenção e lidar com o tempo necessário da aprendizagem.
Pensar exige esforço. Aprender exige tempo. Construir raciocínio exige tentativa, erro, dúvida, persistência e elaboração interna. Mas vivemos a era da resposta instantânea.
Quando uma criança pergunta algo e recebe imediatamente uma resposta pronta, organizada e aparentemente perfeita, ela economiza tempo. Porém, dependendo da forma como isso acontece, também pode deixar de exercitar processos fundamentais do desenvolvimento cognitivo: memória, argumentação, leitura profunda, interpretação e resolução de problemas.
Isso não significa demonizar a inteligência artificial. Seria ingenuidade, e até atraso, imaginar que ela desaparecerá das escolas e da sociedade. A IA já faz parte do presente e certamente ocupará um espaço ainda maior no futuro profissional dessas crianças. O problema não é a existência da ferramenta. O problema é o tipo de relação que estamos construindo com ela.
A tecnologia pode ampliar repertórios, personalizar aprendizagens, democratizar acesso ao conhecimento e apoiar estudantes com dificuldades específicas. Em muitos casos, inclusive na inclusão escolar, pode ser uma aliada extraordinária. Mas existe uma diferença enorme entre usar a inteligência artificial como apoio ao pensamento e utilizá-la como substituta do pensamento.
Talvez estejamos começando a perceber um fenômeno silencioso: crianças que sabem acessar respostas, mas têm cada vez mais dificuldade em elaborar perguntas.
Além da cognição, pesquisadores também vêm alertando para possíveis impactos emocionais e sociais. Alguns adolescentes já utilizam chatbots como companhia emocional, espaço de desabafo ou validação afetiva. Isso revela não apenas um avanço tecnológico, mas também um alerta importante sobre solidão, vínculo humano e saúde mental.
Nenhuma inteligência artificial substituirá algo essencial ao desenvolvimento infantil: relações humanas reais. O cérebro humano se desenvolve no encontro, na conversa, na troca, no conflito, no afeto, no olhar e na convivência.
Talvez o maior desafio da educação daqui para frente não seja impedir o uso da IA, mas ensinar crianças e adolescentes a continuarem humanos enquanto convivem com ela. Porque o futuro não pertencerá aos que apenas souberem usar inteligência artificial.
Pertencerá aos que continuarem sabendo pensar.
