Em um cenário de exaustão, pressão e incerteza, a coragem deixou de ser um traço desejável para se tornar uma condição essencial da liderança na Educação.
Há vários fatores que ajudam a compreender por que a coragem passou a ser tão importante para quem lidera escolas. O primeiro deles está ligado a uma transformação geracional profunda. Pesquisas sobre a evolução das gerações, em especial as desenvolvidas por Jean Twenge, apontam que vivemos a era dos “ismos”: imediatismo, individualismo e extremismo. Essas características atravessam a vida social, familiar e institucional — e aparecem com intensidade e frequência na relação das famílias com a escola.
A escola é pressionada a responder de forma imediata a desejos particulares, como se cada decisão pedagógica devesse se moldar à preferência individual de uma família. Quando isso não acontece, a reação pode vir em forma de desgaste, ameaças, exposição pública, judicialização ou tentativas de deslegitimar o trabalho da instituição.
O que poderia ser resolvido por meio de conversa e alinhamento, passa a ser tratado sob a lógica do confronto. E sustentar o papel educativo da escola nesse ambiente exige, antes de tudo, coragem.
Outro fator central é a saúde mental dos profissionais da educação, que se encontra no limite. Mesmo entre pessoas equilibradas, funcionando bem e conduzindo a rotina com aparente normalidade, há um esgotamento constante. Um dos sinais disso é a naturalização de uma frase cada vez mais repetida: a ideia de que seria preciso escolher entre “ser feliz” e “ter razão”.
Essa oposição traduz muito do tempo em que vivemos, como se sustentar convicções, princípios e critérios profissionais passasse a ser incompatível com o bem-estar cognitivo ou emocional. Como se, para viver em paz, fosse necessário renunciar àquilo que se sabe ser correto. Para muitos gestores e professores, esse é justamente um dos pontos mais dolorosos da profissão hoje: a sensação de que, para seguir bem emocionalmente, será preciso renunciar ao propósito no qual se baseou todo o esforço e dedicação colocados até este momento. Permanecer, então, também exige coragem.
A cobrança por papéis que não são da escola
Há ainda um terceiro fator decisivo: o papel que vem sendo atribuído à escola, de forma cada vez mais intensa e desproporcional ao respeito e à valorização dos profissionais envolvidos. Antes da pandemia, esse movimento já existia. No pós-pandemia, ele se intensificou. A escola passou a ser convocada, cada vez mais, a acolher, ouvir, reparar, evitar gatilhos, prevenir todo desconforto, administrar emoções, adaptar-se integralmente às fragilidades e responder por dimensões que ultrapassam sua função institucional.
Sim, a escola deve ser um ambiente acolhedor, que valoriza o pertencimento, as relações e a segurança emocional. Mas isso não significa que ela possa ou deva assumir o lugar de uma clínica de saúde mental. Quando a expectativa social passa a empurrá-la para esse lugar, o que se compromete é justamente sua capacidade de cumprir aquilo que lhe é próprio no processo de desenvolvimento de crianças e adolescentes. E de realização para aqueles que ali trabalham. Sustentar um limite em relação ao papel da escola e poder de ação dos profissionais da educação, com clareza, também exige coragem.
O peso das legislações e das expectativas irrealizáveis
Somam-se a todo esse cenário as pressões produzidas pela forma como certos temas vêm sendo tratados na legislação e no discurso público, especialmente em relação à inclusão e ao bullying.
O problema não está na importância desses temas, mas sim na abordagem que se construiu em torno deles. Em grande parte dos casos, criam-se expectativas irreais sobre o que a escola, sozinha, consegue resolver. A cada nova atualização normativa, surgem siglas, exigências, protocolos, demandas por formação profissional apressada e sem clareza sobre a adequação dos conteúdos abordados. O resultado: a ilusão coletiva de que, agora sim, tudo está resolvido. Mas não está. A inclusão, um aspecto tão importante da Educação, que requer união e respeito entre e para com todos os envolvidos, continua sendo tratada como se fosse assunto apenas dos legisladores.
No caso do bullying, algo semelhante acontece. O fenômeno eclode dentro da escola, mas é plantado e alimentado fora dela — nas redes sociais, na dificuldade crescente de crianças e adolescentes em conviver, tolerar frustrações e sustentar vínculos. Ainda assim, a cobrança recai de forma concentrada sobre a instituição escolar.
Mais uma vez: continuar liderando nesse contexto exige coragem. E, para você que teve a coragem de parar o que estava fazendo e dedicar seu tempo para a leitura desta revista, fica nosso carinho, nosso respeito e reconhecimento pela coragem de seguir fazendo a diferença na Educação do nosso Brasil!
