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O cuidado com quem cuida. O risco que não aparece no mapa da escola

Toda escola sabe onde fica o extintor. Sabe qual degrau da escada está solto, qual canto do pátio pede mais atenção no recreio, qual portão não pode ficar aberto na saída. Desde 2012, entrando em escolas para falar de prevenção, aprendi que quase todo gestor consegue apontar os riscos que se veem.

O problema é o risco que não se vê.

Pense na professora que chega mais cedo, sorri para as famílias na porta e dá conta de 30 crianças até o meio-dia. Ninguém percebe que ela não dorme direito há semanas. Um dia ela simplesmente não aparece. Vem o atestado, depois outro. A turma troca de professora duas vezes no semestre, os pais começam a perguntar, a coordenação se desdobra para cobrir o buraco. E, quase sempre, a leitura da gestão é a mesma: foi um problema pessoal dela.

Os números contam outra história. Em 2025, a rede estadual de São Paulo registrou 33.309 afastamentos de professores por transtornos mentais e comportamentais, cerca de 91 por dia, segundo a Diretoria de Perícias Médicas do Estado. Só entre janeiro e setembro foram mais de 911 mil dias fora da sala de aula, com média de 35 dias por licença. São dados da rede pública, é verdade. Mas quem conhece a rotina de uma escola particular sabe que a pressão das famílias, o acúmulo de funções e os conflitos do dia a dia não escolhem CNPJ. O adoecimento é da profissão.

Desde 26 de maio de 2026, isso deixou de ser apenas uma questão de sensibilidade. A nova redação da NR-1 passou a exigir que as empresas – e a escola particular é uma delas – identifiquem, avaliem e controlem os riscos psicossociais dentro do seu Programa de Gerenciamento de Riscos. Sobrecarga, assédio, falta de apoio e conflitos constantes precisam estar mapeados, com medidas definidas e responsáveis nomeados. Esse documento pode ser solicitado pelo colaborador, pelo sindicato e pela fiscalização.

Sei que, para muitos gestores, isso soa como mais uma obrigação no meio de tantas. Eu entendo. Mas convido você a olhar por outro ângulo.

A escola já tem um dever de guarda e vigilância sobre cada aluno que cruza o portão. O Código de Defesa do Consumidor responsabiliza a escola particular por falhas no serviço independentemente de culpa, e o ECA afirma, no artigo 70, que prevenir a violação dos direitos da criança é dever de todos. Agora me responda com sinceridade: quem cuida da criança quando o adulto responsável por ela está esgotado? Um professor em sofrimento representa um risco para a turma inteira. Atenção reduzida no pátio, reação lenta diante de um engasgo, paciência curta diante de um conflito. Cuidar de quem cuida também é proteger o aluno.

Existe ainda o lado que ninguém gosta de discutir: o custo. Um afastamento reconhecido como ligado ao trabalho gera estabilidade, depósito de FGTS durante a licença e pesa no Fator Acidentário de Prevenção, o índice que pode reduzir pela metade ou dobrar a contribuição da escola sobre a folha. A conta do adoecimento chega, só que parcelada e sem aviso.

Nas escolas que acompanho, a diferença entre as que atravessam bem esse momento e as que ficam expostas raramente está no tamanho ou no orçamento. Está na postura. Algumas esperam o problema aparecer para reagir. Outras decidem enxergar antes: fazem o diagnóstico, escutam a equipe, registram o que fazem e revisam o que não funcionou. Nada disso é sofisticado. É gestão bem feita.

Se eu tivesse que indicar um primeiro passo, seria ouvir. Uma escuta estruturada com a equipe, feita com método e garantia de sigilo, costuma revelar em poucas semanas o que a gestão levaria anos para perceber: onde está a sobrecarga, quais situações geram mais tensão, quem está segurando mais do que consegue. Com isso em mãos, o PGR (Programa Geral de Riscos) deixa de ser um documento de gaveta e vira um retrato fiel da escola.

E há um detalhe que pesa muito quando algo dá errado. Em um processo, ninguém vai perguntar se a escola se importava com as pessoas. Vão perguntar o que ela fez, quando fez e onde está a prova.

Por isso deixo uma pergunta para esta coluna. Se amanhã alguém batesse à porta da sua escola pedindo para ver como ela cuida da saúde emocional da equipe, o que você teria para mostrar?

Se a resposta vier acompanhada de dúvida, ótimo. Esse é o melhor ponto de partida que existe.

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