Há experiências internacionais que impressionam pela infraestrutura. Outras, pela tecnologia. Mas a minha recente imersão na China me mostrou algo ainda mais profundo: a força de uma cultura que compreende a educação como um valor coletivo.
Durante uma semana, estive na Fudan University, uma das mais respeitadas universidades chinesas, estudando temas ligados à inteligência artificial, inovação, gestão e cultura. Paralelamente, visitei escolas de educação infantil e ensino fundamental, conversei com diretores de escolas particulares, professores universitários e pessoas que fizeram toda a sua trajetória no ensino público chinês. Foram justamente essas conversas que transformaram uma viagem de estudos em uma oportunidade de compreender um país por dentro.
Em um desses diálogos, perguntei a um professor universitário como o governo conseguia convencer a população sobre a importância da educação. A resposta foi curta e inesquecível: “Ninguém precisa convencer ninguém. Valorizar a educação aqui é como ‘comer arroz’”.
Essa frase sintetiza uma diferença essencial entre políticas públicas e cultura. É possível criar programas, reformar currículos e investir em tecnologia. Mas quando uma sociedade inteira compartilha a convicção de que aprender é indispensável, a educação deixa de ser apenas responsabilidade da escola e passa a ser patrimônio coletivo.
Essa percepção ficou ainda mais evidente ao conhecer de perto o Gaokao, o exame nacional que dá acesso às universidades chinesas. Nos dias da prova, cidades inteiras reduzem o ritmo: obras são interrompidas, buzinas evitadas, o trânsito é reorganizado e o silêncio é tratado como um gesto de respeito aos estudantes. Não é apenas um exame; é uma demonstração pública do valor atribuído ao conhecimento.
Naturalmente, a China possui desafios próprios e um contexto histórico muito diferente do brasileiro. Não acredito em importar modelos educacionais como receitas prontas. O que vale a pena importar são perguntas. Como construir uma sociedade que valorize o professor? Como fazer com que estudar seja visto como prioridade nacional? Como transformar educação em um projeto contínuo, e não apenas em um tema de debate eleitoral?
Também mergulhei no universo da inteligência artificial. Conheci aplicações educacionais, acompanhei discussões acadêmicas e visitei uma fábrica de robôs humanoides. A tecnologia impressiona pela velocidade com que evolui e pelas possibilidades que abre para a aprendizagem.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção nas escolas de educação infantil foi o investimento intencional no desenvolvimento da coordenação motora e da autonomia. Vi crianças pequenas utilizando pistolas de cola quente sob supervisão, manuseando ferramentas, explorando a natureza, recolhendo galhos e materiais na floresta para seus projetos e realizando atividades que, no Brasil, muitas vezes seriam consideradas impensáveis. Essa diferença não está apenas na escola, mas na cultura. Ela exige uma relação de confiança entre famílias, professores e crianças, além de uma equipe preparada para ensinar com segurança, e não apenas para evitar riscos. Há décadas, pesquisas sobre o chamado “efeito Pigmalião” demonstram que as expectativas do professor influenciam positivamente o desempenho dos alunos, reforçando que acreditar na capacidade da criança também faz parte do processo educativo.
Paradoxalmente, foi essa experiência que reforçou minha principal convicção: o futuro da educação continuará sendo humano. A inteligência artificial pode personalizar trilhas, analisar dados e automatizar processos, mas não substitui o olhar atento de um professor, a construção de vínculos, a escuta qualificada e a capacidade de inspirar.
Se queremos preparar crianças para um mundo altamente tecnológico, precisamos investir justamente naquilo que nenhuma máquina consegue reproduzir plenamente: pensamento crítico, criatividade, ética, empatia e relações humanas de qualidade.
Voltei ao Brasil com certificados, fotografias e muitas anotações. Mas trouxe, sobretudo, uma certeza: o diferencial de uma nação não está apenas nas tecnologias que desenvolve, mas na importância que decide dar à educação. Antes de perguntar quais ferramentas queremos colocar dentro das escolas, talvez devêssemos responder a uma pergunta mais fundamental: que lugar a educação ocupa, de fato, no projeto de país que desejamos construir?
