Quando o aluno se sente derrotado antes mesmo de tentar
O aumento do pessimismo entre adolescentes desafia a escola a ir além do conteúdo e a fortalecer, de forma intencional, a confiança, o pertencimento e a percepção de futuro.
“Edu, a maioria dos meus alunos, entre 14 e 17 anos, já se sente derrotada antes mesmo de tentar alguma coisa e pessimista em relação ao próprio futuro. O que fazer?”
A pergunta de uma professora traduz uma inquietação cada vez mais presente nas escolas. Muitos adolescentes chegam à sala de aula já abatidos por dentro. Antes mesmo de agir, já acreditam que não vão conseguir. Antes mesmo de tentar, já se sentem em desvantagem diante da vida. Nem sempre se trata de desinteresse ou falta de esforço. Em muitos casos, trata-se de um sofrimento emocional que antecede a ação e compromete, desde cedo, a relação do jovem com a aprendizagem, com os desafios e com o próprio futuro.
Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. A PeNSE 2024, divulgada pelo IBGE, mostra que cerca de três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam sentir tristeza sempre ou na maior parte do tempo. O levantamento também indica que 42,9% dizem sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados com frequência, e 18,5% afirmam pensar, sempre ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida. Quando estados emocionais como esses se prolongam, o futuro deixa de ser percebido como possibilidade e passa a ser vivido como ameaça.
É nesse ponto que o papel do educador se torna ainda mais valioso. Nem sempre o aluno que desiste antes de tentar é alguém sem capacidade. Muitas vezes, é alguém que já não acredita em si mesmo. Já internalizou uma visão limitada sobre quem é, sobre o que consegue fazer e sobre o que pode esperar da vida. Carrega, dentro de si, uma sensação de fracasso antecipado. Por isso, educar também é ajudar o estudante a reconstruir o olhar com que se enxerga. Quando o jovem transforma a forma como vê a si mesmo, transforma também a forma como sente, interpreta e responde à realidade.
Isso traz uma consequência direta para a escola. Antes de cobrar protagonismo, é preciso criar condições para que ele se desenvolva. O jovem não se torna protagonista apenas porque escuta que deve ser. Ele começa a se reconhecer assim quando encontra adultos que o ajudam a nomear emoções, perceber capacidades, elaborar frustrações e reconhecer conquistas. O fortalecimento da autoeficácia, da confiança e do pertencimento não é um efeito colateral do processo educativo. É parte dele.
Isso exige mais do que projetos esporádicos ou ações pontuais. Exige uma cultura escolar em que vínculo, escuta, confiança e pertencimento sejam levados a sério. Exige formação de educadores para compreender que, muitas vezes, o pessimismo do aluno não é indiferença, mas proteção. Não é preguiça, mas medo antecipado de falhar, de ser exposto, de confirmar uma suposta incapacidade.
Também é importante reconhecer que esse desânimo precoce não surge no vazio. Vivemos em um tempo de mudanças rápidas, comparações permanentes, excesso de estímulos, pressões sociais e insegurança quanto ao futuro. A UNICEF registrou uma queda substancial na satisfação com a vida de adolescentes de 15 anos entre 2018 e 2022. Esse dado reforça que a escola não está diante apenas de casos isolados, mas de um contexto geracional que exige atenção mais profunda.
Talvez uma das contribuições mais importantes da educação seja justamente esta: ajudar o jovem a não desistir de si mesmo. Mostrar, por meio de relações consistentes, experiências significativas e práticas intencionais, que ele não está condenado à visão reduzida que hoje tem de si. Que pode agir, amadurecer, construir respostas novas e influenciar a própria trajetória.
Quando a escola ajuda o estudante a mudar a forma como ele se vê, começa também a mudar a forma como ele constrói o próprio futuro.

