Mobiliário: Autonomia, flexibilidade e componente pedagógico
A estrutura física de uma escola, quando bem equipada, é um dos elementos fundamentais para a qualidade de uma instituição de ensino. A organização dos espaços, a distribuição dos ambientes e os recursos disponíveis na escola podem contribuir de maneira significativa para o conforto, o bem-estar físico e psicológico, e para o desempenho dos/as estudantes.
Nesse contexto, as salas destinadas ao ensino e à aprendizagem exigem atenção especial. A composição desses ambientes envolve diferentes fatores, entre eles a escolha e a adequação do mobiliário escolar, que devem considerar as necessidades dos/as alunos/as e as características dos espaços de interação e aprendizagem. Móveis bem projetados – de acordo com as normas técnicas e praticidades para atender os perfis de cada faixa etária de estudantes – auxiliam diretamente no processo de ensino e contribuem para uma aprendizagem ativa e dinâmica.
POSSIBILIDADES PEDAGÓGICAS
O planejamento do mobiliário escolar deve ser minucioso, atentando-se a questões importantes que envolvem ergonomia, para que propicie segurança, saúde e bem-estar a todos/as os/as estudantes que utilizam diariamente os móveis, além de observar outras características, como conforto, funcionalidade, dinamismo e facilidade na manutenção. Nas últimas décadas, em especial, observamos o crescimento da utilização de métodos e metodologias que atualizam e (re)estruturam o ensino-aprendizagem. E, nesses processos de (re)arranjos, o mobiliário escolar também pode ser trabalhado como um componente pedagógico.
“Mais do que escolher móveis bonitos ou modernos, é importante pensar se eles ampliam as possibilidades pedagógicas”, defende Danielle Andrada, especialista em learning spaces e ambientes de aprendizagem. “Um ambiente de aprendizagem precisa comunicar que o estudante tem voz, pode fazer escolhas e é corresponsável pelo espaço que utiliza. Estantes acessíveis, materiais ao alcance das crianças, superfícies para exposição de produções e diferentes áreas de trabalho são elementos que contribuem para esse processo”, complementa.
De acordo com a especialista, os móveis que ampliam as possibilidades pedagógicas propiciam a participação ativa de estudantes na organização, na utilização e na própria transformação do espaço de aprendizagem. Esse movimento de investir na autonomia de estudantes “envolve mesas e cadeiras leves, fáceis de movimentar, com dimensões adequadas às diferentes faixas etárias, além de soluções que favoreçam o trabalho individual, em duplas, em pequenos grupos e em rodas de conversa. A disposição das carteiras, a circulação, a iluminação, a acústica, o conforto e a possibilidade de reorganização da sala podem estimular ou limitar a participação. Por isso, o espaço deve ser compreendido como parte do projeto pedagógico, e não apenas como um cenário onde a aula acontece”, explica Andrada.
Na prática, o ambiente de ensino pode ser caracterizado como o “terceiro educador”, voltado para a autonomia e a aprendizagem ativa. O espaço não pode ser visto como “um cenário passivo, ele convida, provoca e sustenta o comportamento que se quer ensinar. Quando a escola quer crianças que explorem, decidam e colaborem, o espaço precisa permitir isso fisicamente, não apenas desejar isso pedagogicamente”, afirma Bruno Batella, designer criativo.
Segundo Batella, três elementos caracterizam um mobiliário que compõe esse ambiente instigante. “O primeiro é a acessibilidade: o mobiliário precisa estar na altura e no alcance da criança, para que ela não dependa do adulto para iniciar uma atividade. O segundo é a versatilidade: peças que se rearranjam, que servem a mais de um uso, que acompanham a criança em diferentes momentos do dia. O terceiro é a materialidade: materiais naturais, táteis e duráveis, que ensinam pelo contato, pelo peso, pela textura, e não apenas pela instrução”, destaca.
FLEXIBILIDADE E DINAMISMO
Com as metodologias ativas de ensino presentes cada vez mais nas salas de aula, podemos afirmar que o mobiliário flexível modifica a dinâmica das aulas e promove ganhos positivos para a aprendizagem. “Uma sala organizada sempre da mesma maneira tende a reforçar uma lógica mais expositiva e centrada no professor”, diz Danielle Andrada. “Já um ambiente que pode ser rapidamente reorganizado favorece debates, projetos, experimentações, apresentações e atividades colaborativas”, completa.
Embora a utilização de um mobiliário flexível em sala de aula seja interessante, a especialista ressalta que, por si só, o mobiliário não transforma a prática pedagógica, mas funciona como um facilitador. “Para que os ganhos aconteçam, é necessário que esteja articulado à formação dos professores, ao planejamento curricular, à cultura da escola e aos objetivos de aprendizagem. Quando existe essa integração, o mobiliário flexível pode favorecer maior participação, colaboração, autonomia e engajamento”, destaca Andrada.
REFORMULANDO O MOBILIÁRIO
Para gestores/as que pretendem reformular o mobiliário da escola, alguns elementos podem ser observados na hora da escolha dos móveis. Bruno Batella lista três critérios importantes: pedagogia, durabilidade e segurança. “Antes de escolher qualquer peça, o gestor precisa responder: que tipo de experiência de aprendizagem esta escola quer proporcionar? O mobiliário é a tradução física dessa resposta. Se o desenho do espaço não conversa com o projeto pedagógico, o investimento perde o sentido”, afirma.
O mobiliário escolar é utilizado de forma intensa diariamente e, por isso, a gestão deve observar a qualidade dos materiais, para a construção e para a facilidade de manutenção. “Aqui vale uma observação: materiais naturais, como a madeira, não são apenas bonitos, eles envelhecem bem, resistem ao uso e carregam valor sensorial e afetivo que o plástico não entrega. O terceiro critério é a segurança, que não pode ser negociável. Cantos arredondados, estabilidade, acabamento sem riscos, materiais atóxicos. O mobiliário precisa suportar o uso intenso sem representar risco, e isso exige rigor técnico do fabricante”, indica Batella.
A partir da observação dos elementos para a reformulação do mobiliário, e da definição clara do projeto e dos locais que serão reformulados, algumas indicações podem auxiliar no processo de buscar especializadas. Danielle Andrada recomenda procurar empresas com experiência comprovada em ambientes educacionais, solicitar referências de outras instituições e visitar espaços já implantados. “Na contratação, gestores e gestoras devem conferir especificações técnicas, materiais, medidas, prazos, condições de transporte e montagem, garantias, assistência técnica e disponibilidade de peças de reposição”, indica.
“Por fim, eu sugiro que a decisão não seja baseada exclusivamente no menor preço. O mais adequado é analisar o custo-benefício e o custo total de uso ao longo do tempo. Um mobiliário de qualidade, durável, reparável e alinhado ao projeto pedagógico pode representar um investimento mais inteligente do que uma solução aparentemente econômica, mas que exige substituições frequentes ou limita as possibilidades de aprendizagem”, finaliza a especialista. (RP)
Saiba mais:
Bruno Batella – [email protected]
Danielle Andrada – [email protected]

