Conversa com o Gestor — Colégio Joana D’Arc: uma trajetória empreendora na educação básica

Uma trajetória empreendedora na educação básica
Há quase 50 anos, dois jovens adquiriram uma pequena escola primária no então distante bairro do Butantã, zona Oeste de São Paulo. Eles partiram de uma sala única, que reunia quatro séries, e conseguiram em cerca de uma década construir uma instituição que atendesse a toda educação básica. O Joana D’Arc vem, desde então, acompanhando as mudanças e resistindo aos sobressaltos da área. E quer agora buscar recursos que lhe permitam renovar as instalações
A diretora Ana Cristina Pomarico, do Colégio Joana D’Arc, recebeu uma grande notícia neste início de 2012: a Prefeitura de São Paulo acaba de aprovar o projeto de construção de novas instalações na privilegiada área que a escola ocupa, no bairro do Butantã, bem próxima ao Jockey Clube e à Universidade de São Paulo, na zona Oeste da cidade. A ideia é construir pequenos prédios de três andares, além de ginásio coberto, estacionamento e novos laboratórios. Mas a “tão sonhada escola” da família Pomarico exigirá agora que a gestora parta em busca de recursos extra caixa. Será uma nova etapa de uma história de gestão familiar que já tem quase 50 anos, boa parte deles pontuados pela persistência em trabalhar com a educação e a formação de crianças, jovens e adolescentes.
O Joana D’Arc foi, na verdade, reinaugurado pelo pai de Ana Cristina, o diretor José Carlos Pomarico. Ele, então estudante de Engenharia Elétrica com pouco mais de vinte anos, e seu sócio também jovem, Adelino Natal, reabriram em 11 de agosto de 1963 a sala de aula que comportava todo um curso primário, com 30 alunos distribuídos entre o período da manhã e tarde. Cada fileira de carteiras correspondia a uma série. Era o então Externato Joana D’Arc, criado em 1937 pelas irmãs francesas Baby e Tina, mas fechado após o falecimento da segunda. José Carlos e Adelino alugaram as instalações de Baby e adquiriram os direitos de continuar com a escola. A gestão acabou assumida integralmente pela família Pomarico nos anos 90.
No princípio, José Carlos cursava Engenharia Elétrica e Física pela Universidade Mackenzie e dava aulas particulares em sua casa, no bairro de Pinheiros, atividade que começou aos 15 anos. Adelino, por sua vez, era funcionário da Caixa Econômica do Estado. Ambos mantiveram o trabalho em paralelo com a escola, mas para que esta pudesse dar certo, empreenderam um verdadeiro corpo a corpo com as famílias de forma a que as crianças retornassem às aulas. Aproveitaram ainda as instalações para oferecer um curso de alfabetização de jovens e adultos e outro de datilografia.
Mais difícil foi convencer o Ministério da Educação, meses depois, que também poderiam implantar o curso ginasial, a despeito da pouca idade e completa ausência de infraestrutura e recursos. Entretanto, em pouco tempo se estruturaram com a construção de novas salas, biblioteca e laboratório, e conseguiram autorização do governo para abrir as turmas.
Simultaneamente, José Carlos seguia sua trajetória no Mackenzie e em outras instituições, de aluno a professor e depois a diretor do Colégio Técnico do Instituto Presbiteriano.
AULA: “LOCAL IDEAL PARA A APRENDIZAGEM”
O diretor enfatiza que passou “por todas as faixas etárias da educação”. “Dei aulas desde o primário à faculdade de Medicina, me interessava saber como me relacionar com todas essas idades”, lembra José Carlos, que alternava os papéis distintos de gestor e professor, mas focado no resultado concreto da sala de aula. “Nunca encontrei aluno que não quisesse aprender, mas sim, que não quisesse estudar. Como mudar isso? Mostrando que na aula ele aprende com mais facilidade, que a aula é um instante mágico de aprendizado, o local ideal para a aprendizagem. Fazer essa mecânica funcionar é um ponto importante”, defende José Carlos. Segundo ele, o Joana D’Arc tem na gestão da sala de aula uma de suas principais marcas.
José Carlos pontua que o colégio apresenta nasceu e permanece com duas características marcantes: “um projeto com intenção clara de alfabetizar, educar e formar”; e a atenção ao trabalho docente, ao “gestor da aula”. Para isso, conta com dois pressupostos-chave: “o respeito do aluno com a escola e da escola com o aluno”, colocando a disciplina como seu grande pano de fundo. “Temos o direito de viver esse mundo, porque é nosso, mas para isso temos que ter condições de marcar essa posição.” Ou seja, é preciso “aprender a pedir licença, dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’”, defende o diretor.
Sob a gestão compartilhada entre José Carlos e as filhas Ana Cristina e Lúcia Helena, além da parceria com a esposa Ahinoan Macedo Arlindo Pomarico, que atua na Educação Infantil, o Joana D’Arc posiciona-se em favor da disciplina e dos valores em relação ao próprio mercado, “hoje concorrido e difícil”. “Desde o início construímos uma imagem de seriedade, mas em contrapartida sempre tivemos a preocupação de ter bons professores. O Joana D’Arc cresceu com essa imagem e até hoje se vale disso.”
De outro modo, José Carlos afirma que o diálogo com os familiares e estudantes é franco. “Desde o princípio coloco para eles a posição da escola, seus objetivos, eles ficam sabendo tudo o que vai ser exigido deles e tudo o que poderão exigir do Joana D’Arc. As cartas são colocadas na mesa, o que torna a administração bem mais simples”, comenta. O gestor e educador lamenta, entretanto, a dificuldade que as escolas têm hoje para trabalhar os referenciais familiares. Pesquisa interna realizada há pouco tempo pelo colégio identificou crianças que sequer sabem os nomes de seus avós, as quais chegam à escola sem referência de limites e disciplina. “O aluno tem que ser sensível à disciplina, caso contrário não há possibilidade de educá-lo formalmente”, observa.
A GESTÃO DO ENSINO
Com seu lado gestor, José Carlos Pomarico expandiu gradualmente o Joana D’Arc. A implantação do Ensino Médio aconteceu nos anos 70, os 80 conheceram um momento de pico, em que quase dobrou o número de alunos, e entre 2002 e 2009 houve uma breve experiência com o ensino superior (quando introduziu graduação em Administração e Ciências Contábeis, posteriormente incorporada por outra instituição). Na verdade, o período em que mais teve alunos foi um dos piores do Joana D’Arc, avalia. Ocorreu em função do congelamento dos preços e mensalidades determinado pelo Plano Cruzado, de 1986, “quando o pai pagava para a escola menos que um quilo de ervilha torta e pouco estava preocupado com sua proposta, apenas em aproveitar uma oportunidade econômica”.
Em termos de gestão do ensino, o Joana D’Arc ainda trabalha com livros didáticos, indicados pelos professores. E procura desenvolver atividades interdisciplinares (a exemplo de sua Central de Projetos) e extracurriculares com o propósito de transformar o ensino-aprendizagem em uma experiência que traga significado concreto para o aluno. A diretora Ana Cristina Pomarico destaca, por exemplo, que recentemente a Educação Infantil e os anos iniciais do Fundamental se lançaram a um projeto de “caça bactérias”, em que o foco era observar a sua existência concreta “sob as unhas, entre os dedos dos pés, dentro do nariz”. “Retiramos com cotonete amostras de muco e sujeiras escondidas nesses lugares e colocamos para crescer em cultura. A bicharada cresceu até e as crianças realmente acreditaram na existência deles. Foi um experimento digno de Ensino Médio”, conclui Ana Cristina.
A ESCOLA
Porte:
700 alunos na Educação Básica: Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio;
Cerca de 200 alunos no Ensino Técnico, noturno (Abriu a primeira turma de Técnico em Química, em 2012. Possui ainda os cursos de Moda, Mecatrônica e Técnico em Enfermagem);
Equipe da Educação Básica: 4 diretores, 3 coordenadores e 70 professores;
Equipe de apoio: 30 funcionários;
Instalações: Boa parte é própria ou pertence aos mantenedores, sendo que 6 mil metros quadrados abrigam a unidade principal e mil metros quadrados o Joaninha, recém-modernizado.
Por Rosali Figueiredo
Fotos João Elias
Saiba+
Ana Cristina Pomarico
www.colegiojoanadarc.com.br
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José Carlos Pomarico
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