Guia para Gestores de Escolas

Coronavírus: Os impactos da pandemia na educação brasileira

Por Rafael Pinheiro / Fotos André F. Nakahara e Divulgação

O último mês de março foi, no mínimo, atípico para todos os brasileiros. Em uma sucinta retrospectiva, no dia 13 de março, a OMS decretou estado de “pandemia do novo coronavírus” – pandemia é definida quando uma doença infecciosa atinge um patamar elevado e afeta um grande número de pessoas espalhadas pelo mundo. Com o passar dos dias e com o aumento dos casos infectados no país, alguns estados declararam “situação de calamidade pública”, instituindo, assim, medidas sociais para conter a evolução da curva do coronavírus.

Diante das medidas adotadas com enfoque para o isolamento social, eventos foram adiados, aulas foram suspensas, o comércio fechado e uma série de ações preventivas foram aplicadas para assegurar a saúde de todos e todas. Dessa forma, surgem alguns questionamentos no que tange os reflexos dessa suspensão das atividades escolares, tanto para o corpo administrativo como para a área docente das instituições.

Andressa Lutiano, sócia-fundadora e diretora da Wish School (SP), nos conta que os impactos na gestão da Wish aconteceram em fases: a compreensão das decisões de ordem prática para o fechamento temporário da escola e a comunicação com as famílias e os colaboradores da instituição. “A comunicação, aliás, foi o mais importante desta etapa inicial de rearranjos. Nós nos preocupamos em comunicar a todos da maneira mais tranquila possível, a fim de passarmos as informações mais importantes, mas cuidando de acalmar os ânimos”, afirma.

Andressa Lutiano

Sobre a questão financeira, internamente, o colégio decidiu honrar todos os nossos compromissos com os prestadores de serviços. “Continuaremos pagando todos eles mesmo que os serviços não estejam sendo prestados”, diz Lutiano. E, com relação aos pagamentos das mensalidades, a escola acatará os responsáveis que decidirem (durante esse período) suspender o pagamento de alguns serviços, como aulas extras e alimentação, por exemplo.

“Quanto ao pagamento da mensalidade pelas famílias, penso que não teremos problemas. Primeiramente porque esse valor corresponde a um montante anual dividido por 12 meses. E, em segundo lugar, porque já iniciamos as reposições por meio de ensino a distância (EAD), de acordo com as orientações dos órgãos competentes. Além disso, se preciso, estamos preparados a fazer reposições presenciais oportunamente”, destaca a diretora.

Já no Colégio Santa Maria (SP), os contratos terceirizados de prestação de serviços estão sendo cumpridos, tanto com o indivíduo quanto com grupos de funcionários. No regime de quarentena, os colaboradores estão sendo dispensados gradativamente, “primeiro os idosos acima de 60 anos, depois as pessoas que estão com férias vencidas, e as que podem fazer o trabalho em home office. Os outros funcionários, ou estão trabalhando aqui dentro (Tesouraria e Departamento Pessoal, por exemplo) ou fazendo banco de horas”, diz Diane Clay Cundiff, diretora geral do colégio. 

Diane Clay Cundiff

Segundo a diretora, a área administrativa realiza reuniões diárias para estabelecer novas e possíveis decisões necessárias. E, com relação ao planejamento pedagógico após a pandemia do coronavírus, a diretora garante que será planejado “conforme as necessidades dos alunos, e as dúvidas que eles tiverem. O que fazer quando retornarmos vai depender do tempo que ficarmos sem aulas presenciais”, finaliza.

TRABALHO INTERDISCIPLINAR

Assim como o novo coronavírus reformulou toda a estrutura administrativa educacional, os reflexos provocados pela pandemia também alteraram densos cronogramas pedagógicos desenhados para o início do ano de 2020. No Colégio Positivo, presente em algumas cidades do Paraná, temas como coronavírus e dengue foram incluídos por professores e assessores pedagógicos para serem trabalhados na grade curricular deste ano – planejamento este realizado antes da disseminação do vírus no país.

A ideia de abordar esses temas de forma interdisciplinar na grade curricular promove uma reflexão sobre vários aspectos do conhecimento humano. Para Eduardo Emmerick, professor e assessor pedagógico de Filosofia e Sociologia do Ensino Médio, um dos responsáveis pela NLI (Nota Livre Integrada) de Humanas, essa iniciativa “faz com que os alunos tenham um contato na visão de Humanas, por exemplo, não só sobre a doença, a origem e como se cuidar, como também de questões que envolvem xenofobia, racismo, negacionismo científico, que são temas importantes no contexto”.

Com a suspensão das aulas presenciais, os alunos se reúnem virtualmente em pequenos grupos para discutir e refletir sobre as questões propostas nos trabalhos. São duas avaliações bimestrais desse tipo, uma para a NLI das Ciências Humanas (Filosofia, Sociologia, História e Geografia) e outra para a NLI das Ciências da Natureza (Biologia, Química, Física, Biologia e Matemática).

Colégio Positivo (PR)

Na área das Ciências da Natureza, o tema central em torno do coronavírus e a Dengue promove diversos tipos de conteúdos. “Na Biologia, serão abordadas questões sobre problemas como epidemia: o que é epidemia, o que é pandemia, o que é endemia, quais são os sintomas, quais os métodos da profilaxia, como afetará a população, e que não existe necessidade de entrar em pânico”, descreve o professor e assessor pedagógico de Biologia, um dos responsáveis pela NLI de Ciências da Natureza e Matemática, Guilherme Rodrigo Teitge.

Segundo o professor, a Matemática vai calcular a propagação viral. Já a Química avaliará os efeitos do álcool em gel, a importância do uso para o combate do vírus, assim como o sabão, e como interferem na biologia do vírus. Física fará perguntas a respeito de transformação de temperaturas, de graus Celsius para Fahrenheit, comparando a febre em pacientes em diversos locais do globo. Cálculos da velocidade média para mensurar o tempo de deslocamento de pacientes infectados também estão entre os conteúdos ensinados.

Dessa forma, o desenvolvimento educacional reforça o seu objetivo em formar cidadãos conscientes, propiciando o pensamento crítico especialmente pela interdisciplinaridade como uma construção instigante de conhecimentos. Outro ponto de atenção do colégio é o combate às fake news. “Incentivamos os alunos a perceberem a importância das escolhas lexicais em um texto, a perceberem a linguagem tendenciosa, etc. Tudo é oportunidade para o aprendizado. O trabalho é diário e incessante contra as fake news”, afirma a professora e assessora pedagógica de Redação, Candice de Almeida.

Para o aluno Enrico Marques, de 14 anos, o momento de isolamento social acaba gerando ansiedade na população na busca por informações. “O tráfego nas redes sociais aumentou significativamente nos últimos dias. As pessoas buscam informações sobre a evolução do coronavírus e, muitas vezes, acabam acreditando em mentiras ou meias verdades que são compartilhadas na internet”, comenta.

CONTEÚDO EM DIVERSOS FORMATOS

O ensino on-line é, sem dúvida, o melhor aliado de estudantes e educadores nesse momento de isolamento social. Na atualidade, permeada por ferramentas, aplicativos e facilidades digitais, as formas remotas de aprendizado emergem entre estudantes e educadores em diversos formatos.

No Colégio Marista Asa Sul (Brasília), a equipe docente desenvolveu materiais, vídeos, exercícios e atividades que focam tanto nos conteúdos como nos aspectos lúdicos. “O material é disponibilizado aos estudantes por meio de plataforma virtual. A ideia é manter o hábito e a rotina de estudos e o vínculo com o colégio, mesmo que à distância. Os professores, inclusive, estão enviando pequenos vídeos de estímulo aos alunos”, conta Rony Ahlfeldt, diretor do colégio.

Rony Ahlfeldt

Para o diretor, a transição das aulas presenciais para o ambiente virtual não terá efeito negativo para os alunos, já que essa geração domina as tecnologias, desenvolvendo, para muitas áreas, a capacidade de aprender à distância – inclusive por meio de tutoriais e dicas. “Assim funciona com games, uso de alguns aplicativos que fazem parte do dia a dia dos jovens e até mesmo no aprendizado de idiomas. Além disso, a escola está preparando atividades em diversos meios – videoaulas, chats, lista de exercícios, indicação de sites e vídeos, e dinâmicas”, completa.

Sobre o impacto dessas mudanças no cotidiano escolar, o diretor comenta que certamente o cronograma letivo e 2020 sofrerá alterações e que, nesse primeiro momento, é difícil prever o que será realizado quando os estudantes regressarem às aulas presenciais, já que não há uma data exata para o fim da quarentena. “Por enquanto, nosso papel é manter nossos alunos ativos, focados em atividades que os ajudem em alguns momentos a passar o tempo e também para que não se desliguem totalmente dos estudos. É certo que o cronograma do restante do ano será diferente. Aulas aos sábados serão necessárias para reposição, por exemplo”, ressalta Ahlfeldt.

PROTAGONISMO DOS ESTUDANTES

“Agora os alunos serão os protagonistas, de fato, de seus estudos! Se quiserem dormir ou ver TV o dia inteiro, a responsabilidade é deles e o interesse será o grande desafio. Para os professores também, aprendendo a criar materiais e conteúdo de forma virtual. É um aprendizado”, afirma Rodrigo Oliveira, coordenador do Ensino Médio do Colégio Divino Salvador.

No momento de isolamento social para conter a disseminação da pandemia, as dinâmicas pedagógicas sofreram algumas alterações. No Colégio Divino Salvador, instituição de mais de 65 anos e com unidade em Jundiaí (SP), os professores fizeram roteiros de estudos com indicações para utilizar recursos como vídeos, livros, textos e filmes para a criação de uma rotina de estudos. Em casa, o aluno estuda a apostila, faz os exercícios e pode tirar dúvidas através de uma plataforma, inclusive por meio de um plantão on-line com os professores.

Para os alunos da Educação Infantil, o roteiro é o mesmo, mas é essencial a participação dos pais. Lia Mara dos Santos, coordenadora, explica que é importante os pais acompanharem a rotina das crianças no momento de estudo e com regularidade. A Educação Infantil pressupõe interação e “manter a regularidade é importante para que no momento de volta às aulas não haja um retrocesso”, diz.

Essa nova situação que todos e todas das comunidades escolares atravessam é singular – tanto para os alunos e responsáveis como para os educadores. E, diante de tantas mudanças, a compreensão das rotinas é delicada e requer doses de paciência e criatividade. De acordo com Maria Isabel Gut, psicóloga e orientadora educacional do Colégio Divino Salvador, muito tempo em isolamento requer paciência, pois existe um limite de tolerância. “Jogos de tabuleiros, fazer massinha em casa, aprender uma receita em casa. Não sabemos quanto tempo vai durar, é um momento de incerteza, por isso precisaremos nos reinventar principalmente quanto às propostas aos filhos”.

Para ela, essa situação rara vai resgatar o ensino de valores, que compactua tanto com o que o colégio trabalha no seu núcleo de formação humana. “São valores de solidariedade, colaboração, do cuidado com o próximo. Várias lições podem ser tiradas de tudo isso, sem mágica ou receita pronta. Estamos aprendendo e seremos referência para as próximas gerações. É um momento de olharmos uns para o outros”.

Saiba mais:
Colégio Divino Salvador – [email protected]
Colégio Marista Asa Sul – [email protected]
Colégio Positivo – [email protected]
Colégio Santa Maria – [email protected]Wish School[email protected]

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