IA é essencial na educação, mas inserida em projeto pedagógico
Por Inês Vega
Assim como em diversos setores da economia, a inteligência artificial já é realidade na Educação. Chegou às escolas com velocidade, e a reflexão pedagógica precisa acompanhar e direcionar esse ritmo. Em pouco tempo, passou a estar presente na rotina de alunos e professores, muitas vezes sem mediação adequada, sem critérios pedagógicos claros e sem o apoio estruturado de que escolas e docentes precisariam para incorporá-la com responsabilidade. É justamente esse ponto que merece atenção.
O potencial dessa tecnologia é enorme, e precisamos observá-la do ponto de vista do valor. Para que a inteligência artificial contribua de fato com a educação, precisa estar subordinada a um projeto pedagógico consistente, orientado por princípios humanos. Não é apenas uma ferramenta. É um sistema que pode e precisa se conectar às necessidades de aprendizagem de todos. Do ponto de vista do trabalho docente, um sistema de educação baseado em IA pode auxiliar no planejamento das aulas, no acompanhamento da aprendizagem de cada estudante e na personalização de atividades. O professor permanece no centro do processo educativo, e isso não é um detalhe, é a condição para que a tecnologia se coloque a favor da aprendizagem.
Sem intencionalidade pedagógica, a inteligência artificial pode garantir o sucesso de entregas pontuais, mas falha em consolidar a aprendizagem real. O aluno termina a tarefa, entrega no prazo, tira uma nota razoável e, ainda assim, pode não levar consigo nada que se sustente além daquele momento. Além do risco de obter a resposta sem aprender, pode, muitas vezes, encontrar alucinações e vieses, típicos das ferramentas de IA generativa disponíveis hoje.
Um estudo recente apresentado no relatório OECD Digital Education Outlook 2026 ilustra bem essa questão: estudantes do Ensino Médio que usaram uma IA convencional para resolver exercícios de Matemática tiveram desempenho bem superior ao dos colegas que estudaram apenas com livros e anotações. A surpresa veio depois, quando esses mesmos alunos foram avaliados sem qualquer apoio externo: o grupo que havia dependido da IA teve resultado pior do que aqueles que aprenderam sozinhos desde o início. Os ganhos de desempenho não se converteram em aprendizagem; desapareceram no instante em que a ferramenta saiu de cena.
A tecnologia sustenta o aluno durante a tarefa, mas reduz o esforço cognitivo necessário para que o conteúdo se fixe de fato. Sem tentativa, sem erro, sem o exercício de analisar onde se errou, sem testes ou microtestes, não há consolidação do conhecimento, apenas a sensação de tê-lo adquirido.
Uma IA genérica tende a funcionar como atalho para a resposta final. Uma IA pensada para a educação precisa percorrer o caminho inverso: atuar de forma integrada, como uma parceira que estimula o pensamento em vez de substituí-lo.
Esse tipo de ferramenta deve se comportar como um tutor socrático, o que significa, na prática, três movimentos: evitar respostas diretas, para que o raciocínio do próprio aluno seja exercitado; oferecer apoio gradual, com dicas que vão sendo retiradas à medida que o estudante ganha autonomia; e provocar conflito cognitivo e pensamento crítico, desafiando suposições e convidando à explicitação do raciocínio, não apenas à sua execução.
É esse desenho pedagógico que transforma a tecnologia em algo que ilumina o caminho até o conhecimento, e não em mais um atalho para a entrega da próxima tarefa.
A inteligência artificial pode, sim, trazer mais dinamismo, personalização e engajamento às rotas de aprendizagem, ajudando a enfrentar problemas antigos da rotina escolar. Esse é o caminho: tecnologia educacional a serviço do desenvolvimento dos estudantes. Seu valor real não está na substituição das capacidades humanas, mas em sua ampliação, contribuindo para que cada aluno aprenda mais e melhor.
Inês Veja é diretora-geral da Santillana Educação e possui ampla experiência internacional nos setores de educação e mídia, com atuação na Europa, Ásia e América Latina. Há mais de 16 anos no grupo Santillana, liderou operações na República Dominicana, México e Brasil. Antes disso, esteve à frente de operações do Grupo Prisa na Espanha e na China.

