O desafio não é ampliar a jornada. É reinventar a escola
Por Luciana Allan
Brasil acerta ao colocar educação em tempo integral no centro da agenda pública. Agora, o desafio é transformar as horas adicionais em oportunidade para reconstruir a experiência escolar.
O Brasil parece ter chegado a um consenso raro na educação: ampliar a oferta de escolas em tempo integral. Sempre desejei esse caminho.
O novo Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece a meta de que, até 2036, metade das matrículas da educação básica seja ofertada nessa modalidade. Isso significa mais do que dobrar o número de estudantes atendidos hoje.
Antes de discutirmos quantas escolas precisarão ser construídas ou quanto custará essa expansão, é preciso responder a uma pergunta mais importante: o que queremos que aconteça durante essas horas a mais?
As evidências justificam o meu otimismo. Uma meta-análise do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostra que a educação em tempo integral está associada à redução da evasão escolar, ao fortalecimento da proteção social de crianças e adolescentes, ao desenvolvimento de competências socioemocionais e à ampliação das perspectivas acadêmicas e profissionais, especialmente entre estudantes em contextos de maior vulnerabilidade. Esses resultados, porém, aparecem quando a ampliação da jornada vem acompanhada de currículo adequado, infraestrutura e formação de professores.
Laura Müller Machado, professora do Insper e ex-secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, lembra, com razão, que a maior parte dessas evidências foi produzida quando a educação integral ainda atendia uma parcela relativamente pequena dos estudantes brasileiros. À medida que a política ganhar escala, o desafio deixa de ser provar que ela funciona e passa a ser outro: como preservar seus resultados? Precisaremos olhar para além das provas padronizadas e acompanhar indicadores como permanência na escola, desenvolvimento socioemocional, autonomia, projeto de vida, inserção profissional e participação cidadã.
Mas o maior equívoco é confundir aumento da carga horária com educação integral. Como já defendi em outro artigo, educar integralmente não significa apenas prolongar a permanência do estudante na escola. Significa promover, de forma articulada, o desenvolvimento cognitivo, emocional, social, cultural e ético. A educação integral não é uma questão de relógio. É uma concepção de escola.
É justamente por isso que ampliar o tempo só fará sentido se ampliarmos, sobretudo, a qualidade desse tempo. O maior obstáculo está na forma como organizamos a jornada escolar. Em aulas de cinquenta minutos, professores precisam apresentar conteúdos, organizar a turma, explicar conceitos, propor atividades e avaliar a aprendizagem. Antes que uma conversa amadureça, toca o sinal. A aula expositiva acaba predominando, não necessariamente porque seja a melhor estratégia pedagógica, mas porque é a que cabe na arquitetura do tempo escolar.
A jornada ampliada oferece a oportunidade de romper essa lógica. Ela não pode funcionar como uma extensão burocrática da manhã, preenchida por reforço escolar ou atividades desconectadas do currículo. Precisa abrir espaço para reorganizar a experiência de aprendizagem. Com mais tempo, tornam-se viáveis projetos interdisciplinares, estudos do meio, saídas de campo, oficinas de teatro, marcenaria, robótica e produção audiovisual, investigações científicas, debates e atividades de aprendizagem mão na massa que dificilmente cabem em uma rotina fragmentada.
Essa reorganização dialoga diretamente com os princípios do Crescer: despertar o desejo de aprender, combinar múltiplas abordagens, desenvolver competências, utilizar tecnologias com intencionalidade pedagógica, ampliar os espaços de aprendizagem e formar cidadãos comprometidos com a sustentabilidade. Em outras palavras, educação integral deixa de significar apenas mais horas de aula e passa a representar outra maneira de aprender.
A boa notícia é que não precisamos imaginar como isso funciona. Há experiências concretas demonstrando esse caminho.
As escolas da Finlândia tornaram-se referência porque utilizam o tempo extra em que mantêm os estudantes na escola para favorecer projetos curriculares, colaboração e hobbies. No Bronx, em Nova York, a The Laboratory School of Finance and Technology aproxima currículo e território ao transformar problemas reais da comunidade em oportunidades de aprendizagem. Em Bali, a Green School mostra que natureza, sustentabilidade, bem-estar e aprendizagem baseada em projetos podem fazer parte da mesma experiência educativa.
O Brasil também acumula exemplos inspiradores. Escola Lumiar, Projeto Amora, Instituto Âncora e as escolas municipais Desembargador Amorim Lima e Presidente Campos Salles – as duas últimas baseando-se na experiência portuguesa da Escola da Ponte –, reorganizaram tempos, espaços e relações pedagógicas para fortalecer autonomia, protagonismo e desenvolvimento de competências.
Este ano, quatro escolas brasileiras figuram entre as finalistas do World’s Best School Prizes, premiação conhecida como a “Copa do Mundo das Escolas”: Escola Baniwa Kalipana, Centro de Educação Infantil Rosa Mutran Maluf, Centro Educacional Primeiro Mundo e Escola Municipal GET IV Centenário. Embora atuem em contextos muito distintos, todas compartilham uma mesma convicção: aprender vai muito além da transmissão de conteúdos e depende da capacidade de conectar currículo, cultura, comunidade e projeto de vida.
Essas experiências ajudam a compreender por que recomendo a leitura de Viagem à Escola do Século XXI, de Alfredo Hernando. Ao percorrer dezenas de escolas inovadoras, o autor demonstra que não existe um modelo único de inovação. Apesar das diferenças entre elas, todas reorganizaram metodologias para colocar a aprendizagem no centro da vida escolar. Em comum, compreenderam que mais tempo só produz melhores resultados quando é usado para construir experiências mais ricas, profundas e significativas.
O Brasil acertou ao recolocar a educação em tempo integral no centro da agenda pública. Agora começa a etapa mais difícil. Não basta construir escolas maiores, ampliar jornadas ou criar milhões de matrículas. Será preciso criar condições para que redes de ensino, gestores e professores modifiquem a forma de ensinar e organizar a vida escolar.
Se as horas adicionais servirem apenas para reproduzir o modelo tradicional, teremos perdido uma oportunidade histórica. No entanto, se forem usadas para integrar currículo, desenvolver competências, ampliar repertórios e despertar o desejo de aprender, poderemos construir uma política pública capaz de transformar trajetórias de vida… e do país.
Vamos reinventar a escola!
*Luciana Allan é doutora em Educação pela USP e diretora técnica da ONG Crescer, onde, há 25 anos, lidera projetos nacionais e internacionais na área de educação.

