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Revista Direcional Escolas
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O corona como metáfora: a complexidade da pandemia como representação dos desafios da educação contemporânea

Em 11 maio, 2020
Colunas e Opiniões

Uma das primeiras representações de divisão do conhecimento que temos notícia foi a partir das reflexões de Pitágoras de Samos, que acreditava que deveríamos separar o entendimento do mundo a partir de duas orientações: uma focada no âmbito humano e outra focada no âmbito natural. Esse modelo influenciou toda a filosofia clássica Grega. Na forma de “Artes liberais Clássicas”, retórica e gramática se organizavam em um campo, geometria e astronomia em outro.

Formalmente essa ideia de currículo por áreas foi estruturada na idade média, a partir do século IX D.C., organizando-se a formação dos jovens sacerdotes e aristocratas em Trivium (dialética-lógica, gramática e retórica) e Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). De um lado as linguagens, do outro as exatas.  

Conteúdo Comunidade Direcional Escolas

A segmentação curricular se acentua no Iluminismo, movimento cultural iniciado na Europa no século XVII, que dá origem a muitas das especializações dos currículos escolares contemporâneos. As artes liberais se transformaram em Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Linguagem e Matemática.

A escola pública nasceu nesse processo de especialização e fragmentação do conhecimento. Esse arranjo curricular foi fundamental para o desenvolvimento dos paradigmas disciplinares e o aperfeiçoamento e aprofundamento do conhecimento acadêmico. Os meios de produção se beneficiaram dessa maneira de estruturar o mundo, aprofundando os processos de divisão e especialização do trabalho para o aumento de eficiência das linhas de montagem.

Nessa longa história de construção de modelos de pensar, da Grécia antiga à revolução industrial, aconteceu um grande processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento do conhecimento especializado, que muito beneficia nossa espécie. Gerações e gerações favoreceram-se dessa forma de organizar o mundo como conhecemos – e devemos muito a esses modelos curriculares. No entanto, se construir toda uma gama de protocolos e currículos escolares hiper estruturados foi ótima para um mundo mais estático, essa forma de organizar o conhecimento não é mais tão eficiente para um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo (VUCA, no acrônimo em inglês) que vivemos.

Todo o século XX foi um grande ensaio para que uma forma de pensar mais integrada se estabelecesse. A grande mobilidade decorrente dos meios de transporte urbano e a imediata conexão global decorrente dos meios de comunicação trouxeram aos indivíduos e a sociedade uma intensa troca de conhecimento, subjetividades e valores culturais sem precedentes. O ciclo da natureza não era mais o único agente de previsibilidade e imprevisibilidade. Novos elementos desequilibrantes do cotidiano surgem mais rápidos que as estações do ano, mais contundentes que uma tempestade. Ideias como a Teoria do Caos, na Química, a Hipótese de Gaia, na Biologia, o Pensamento Complexo, na Filosofia e a Modernidade Líquida, na Sociologia, puseram em dúvida um modelo de pensamento baseado no paradigma da especialização.

Muitos fenômenos complexos do século passado e do início dos anos 2000 exigem mais do que uma visão fragmentada para sua compreensão: a crise econômica de 1929, o lançamento da bomba atômica, o ataque terrorista nas torres gêmeas ou a quebra econômica de 2008, são fenômenos complexos por excelência e demandam explicações ancoradas em diferentes pontos de vista, conectados e integrados, para serem compreendidos.

Agora, um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta é o contágio planetário do coronavírus. A rápida mudança de comportamento social, psicológico e econômico que a pandemia nos infligiu evidencia dramaticamente que os paradigmas milenares de pensamento devem ser revistos, e que todo o pensamento gestado sobre a complexidade deve ser utilizado para a compreensão da nova realidade.

A escola precisará, decisivamente, discutir o modelo com que forma as novas gerações, ainda predominantemente influenciada pelos paradigmas da linearidade, fragmentação de tempos, espaços e hierarquias de poder e de conhecimento. As reformas educacionais no mundo vêm apontando para a necessidade de um pensamento mais aberto, desenvolvido coletivamente e focado na complexidade e na integralidade do ser. Conceitos curriculares como o trabalho por projetos, orientações por temas transversais, resolução de problemas ou análise de casos são importantes elementos para reconfigurarmos modos de pensar, agir e sentir frente às emergências do mundo. As crises sistêmicas serão o novo normal, no campo sanitário, político, econômico, ambiental, nas relações urbanas ou em qualquer área do fazer humano. Que a trágica emergência do coronavírus nos permita refletir e transformar os currículos escolares em um instrumento de interpretação, compreensão e equacionamento dos fenômenos aleatórios que cada vez mais emergirão e que, ao final, contribuam para uma formação integral, justiça social, e harmonia entre os povos, o ser humano e a natureza.

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    Miguel Thompson

    Miguel Thompson é diretor acadêmico da Fundação Santillana. Formado em biologia pelo Mackenzie, é mestre e doutor pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), autor de livros didáticos e de difusão científica. Foi consultor do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e diretor-executivo do Instituto Singularidades, além de professor do Ensino Básico durante 25 anos.

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