A IA precisa ampliar a dimensão humana na educação, não o contrário
Por Luciano Monteiro
A introdução da inteligência artificial (IA) nos processos educacionais deixou de ser uma mera conjectura para se tornar um desafio concreto de política pública e prática pedagógica. No Brasil e na América Latina, o uso de ferramentas de IA nas mais variadas atividades cresce em ritmo acelerado e a educação não poderia deixar de absorver esse impacto em várias de suas etapas.
Esse cenário exige menos entusiasmo acrítico e mais propósito, pois o real valor da tecnologia depende diretamente de como ela é integrada ao projeto educacional. A inteligência artificial veio para ficar. Mais do que isso, veio para transformar e nos colocar diante de escolhas que não podemos adiar, sobretudo para as boas práticas de ensino e gestão escolar.
A discussão mais urgente não é se devemos ou não incorporar ferramentas de IA no processo pedagógico. Essa questão já está superada pela realidade. O que precisamos enfrentar, com seriedade e responsabilidade, é como fazer isso de forma que a tecnologia esteja verdadeiramente a serviço da educação. A IA deve ser compreendida como ferramenta para ampliar capacidades humanas, nunca como substituta do professor ou da tomada de decisão pedagógica.
A IA é uma grande auxiliar na geração de dados e produção de evidências pedagógicas e pode ajudar escola e docente a tomarem decisões mais qualificadas. Tem uma capacidade extraordinária de personalizar a aprendizagem e fazer com que cada aluno seja atendido no seu ritmo, no seu nível, com suas necessidades específicas. Dessa forma, essa tecnologia tem potencial para ampliar a inclusão, sobretudo no caso de estudantes com algum grau de dificuldade de aprendizagem. Dessa forma, o seu uso em sala de aula pode liberar o professor das tarefas mais operacionais, devolvendo-lhe tempo e energia para o que realmente importa, que é o olhar atento e a conexão humana com o aluno.
A tecnologia não pode ser sinônimo de mais telas diante do aluno, mais dispositivos na mochila ou mais plataformas à disposição de professor. Ela precisa correr por trás da sala de aula, assegurando que os conteúdos tradicionais, o livro didático, o papel e a relação humana entre professor e aluno mantenham o seu protagonismo.
Não é aceitável que escola alimente uma dependência excessiva de recursos impessoais já massivos na sociedade. A eficiência tecnológica não substitui a dimensão humana da educação, pelo contrário, ela a torna ainda mais necessária. Profissionais que utilizam IA tendem a ter melhores resultados do que aqueles que não utilizam, mas isso não elimina a centralidade do fator humano em algo tão pessoal quanto o ensino e o aprendizado.
O Brasil já conta com diretrizes publicadas sobre o uso da IA na educação, o que nos coloca em vantagens frente a muitos países. Quando olhamos para a América Latina, vemos poucos países com normas e recomendações consistentes para o uso dessa inovação inescapável. Em abril deste ano, a UNESCO, com apoio da Fundação Santillana, lançou o Observatório Regional de Inteligência Artificial na Educação para a América Latina e o Caribe, com o objetivo de oferecer subsídios concretos para que governos e sistemas educacionais formulem políticas mais sólidas sobre o tema, considerando parâmetros como pensamento crítico, uso ético, personalização e inclusão.
Estamos diante de uma janela histórica. O caminho não é simples, mas está mapeado. Façamos uso intencional, pedagógico e ético da IA promovendo a formação de professores que sejam protagonistas dessa transição. Vamos manter o compromisso firme para que a tecnologia siga a serviço da equidade e do desenvolvimento humano. Menos telas, mais tecnologia com objetivo pedagógico. Mas o coração do ensino segue mais humano do que nunca.

