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Guia para Gestores de Escolas

Conversa com o Gestor – Psicopedagogo na Instituição Escolar

Matéria publicada na edição 108 | Maio de 2015- ver na edição online

Os processos de aprendizagem de crianças, adolescentes e adultos atravessam, em alguns casos, diferentes transtornos e dificuldades que afetam diretamente o aproveitamento dos estudos, interferindo, em vários níveis, fatores socioemocionais, comportamentais e relações interpessoais

Por Rafael Pinheiro 

Toda escola abriga uma extraordinária diversidade de alunos, com múltiplos interesses, aptidões, antecedentes e históricos culturais. Nesse espaço privilegiado, os alunos desenvolvem as indispensáveis competências para, em um futuro próximo, aprender uma profissão e inserir-se no sistema empresarial. Adquirem, também, instrumentos necessários para conviver sem maiores tropeços, tentando, ao máximo, polir seus relacionamentos interpessoais.

Os alunos enfrentam, em uma carga horária altíssima e uma exigência indiscutível, dois desafios paralelos: compartilhar conhecimentos e habilidades de caráter universal e preservar a própria singularidade. É inegável admitir que os efeitos da globalização interfiram na educação, de forma literal. E reafirmar as bases da singularidade e identidade de cada aluno é um trabalho árduo, prolongado e suplica uma cooperação coletiva.

Quando a reflexão é possível, podemos analisar e captar certos parâmetros que o inconsciente coletivo imagina e projeta para o âmbito educacional, tendo como principal rumo o aprendizado em primeiro plano, minimizando, assim, todos os impactos que cercam o cotidiano escolar: tanto nos corredores da instituição, nas salas de aula, nos momentos de lazer e nas dificuldades atravessadas – exterior ou interior.

A escola é uma construção social organizada e, a partir dela, recebe-se estímulos, habilidades, mudança de comportamentos, interferência de diversos fatores (intelectual, físico, social, emocional e psicomotor), experiências significativas, autodescoberta e, também, dificuldades explícitas ou sutis que ganham força durante todo o extenso período letivo.

Nessa interação, que recebe influência de uma infinidade de fatores, constrói-se um emaranhado de saberes, práticas, valores, crenças e conhecimentos. E, nessa rede, fortalecida no interior da instituição escolar, certas práticas e técnicas são utilizadas para diagnosticar, acompanhar e amenizar impactos e problematizações inerentes ao seres humanos. A inserção da psicopedagogia no ambiente estudantil auxilia e estuda as relações interpessoais, a aprendizagem (de crianças, jovens e adultos) e os trantornos que possam afetar a assimilação e o processo contínuo de ensino.

De acordo com o Centro Psicopedagógico, a psicopedagogia busca na psicologia, psicanálise, psicolinguística, neurologia, psicomotricidade, fonoaudiologia, psiquiatria, entre outros, o conhecimento necessário para aprender como se dá o processo de aprendizagem nos indivíduos. É preciso, em tempo, desfazer o equívoco de que a psicopedagogia é a fusão da pedagogia com a psicologia, ou vice-versa. Ela vai além dos conhecimentos específicos de ambas as áreas.
PSICOPEDAGOGO NAS ESCOLAS

A instituição escolar, responsável em grande parte pela formação do ser humano, recebe o psicopedagogo com o intuito preventivo, no sentido de procurar competências e habilidades para a solução de certos transtornos. Nessa questão, o papel do psicopedagogo nas escolas é de suma importância e deve ser pensado a partir da instituição.
Taís Lima, psicopedagoga e professora de ensino superior da Faculdade Paulista de Artes, acredita que que o papel do psicopedagogo nas escolas pode ser desempenhado de duas maneiras: de forma preventiva, orientando e esclarecendo à equipe educacional, as questões relativas à aprendizagem para que haja uma abertura maior por parte dos professores e direção, no sentido de melhorar as relações entre professor-aluno, a fim de que esse binômio possa ser uma relação efetivamente de troca entre ensinante e aprendente, onde ambos ensinam e ambos aprendem.

“Outra forma de se trabalhar é a terapêutica, que de acordo com minhas pesquisas tem um resultado muito melhor, quando o professor ou grupo de professores são atendidos pelo psicopedagogo para que possam aprender a lidar com as diferentes modalidades de aprendizagem, entenderem a própria maneira de aprender e resolverem primeiro as suas dificuldades”, destaca Taís.

Segundo a psicopedagoga, os professores, muitas vezes, têm grande dificuldade para compartilhar seus conhecimentos e é impossível pensar em aprendizagem sem esse compartilhamento. Fazendo um trabalho psicopedagógico com o professor, à medida que ele se conhece como aprendente, pode se reconhecer como ensinante e assumir a autoria de sua obra, possibilitando que a aprendizagem ocorra.

A educação, então, visualizada como um processo de construção do conhecimento que ocorre devido a uma complementação, constituindo a relação existente entre professor-aluno, reforça os laços dessa ligação, explorando um caráter seguro – tanto pelos alunos, como pelo próprio professor. Estabelecendo, assim, uma dinâmica confiável tanto pela transmissão/recebimento de aprendizagem, como fatores socioemocionais, que embate diretamente o aprendizado.

Especialistas da educação afirmam que o desenvolvimento das habilidades socioemocionais são importantes para a formação dos alunos. Pois, se não forem bem trabalhadas, acabam interferindo ou até mesmo prejudicando o aprendizado cognitivo. “Pesquisas revelam que alunos com as  habilidades socioemocionais mais desenvolvidas, com autoestima elevada, seguros, que conseguem gerenciar suas emoções, trabalhar perdas e frustrações, entre outros, possuem maior facilidade em aprender os conteúdos acadêmicos e administrar os conflitos e desafios de seu dia a dia”, diz Cristiane de Cássio Ruivo, coordenadora pedagógica da Conceito Escolas Inteligentes.

Irene Maluf, especialista em psicopedagogia, educação especial e neuroaprendizagem, afirma que “o Ser Humano é uno, apenas se divide teoricamente para fins de estudo. Assim, a maturação biológica, social e afetiva, caminham juntas e a aprendizagem depende fundamentalmente das trocas que cada criança, jovem ou adulto faz com o meio ambiente a todo instante. Essas informações advindas do meio exterior e das relações com os demais, para que se transformem em conhecimento, precisam passar primeiro pelo sistema límbico do cérebro, ou seja: é preciso emoção, sentimento, afetividade para aprender”.

Alguns efeitos socioemocionais, dificuldades de relacionamento e certos distúrbios que percorrem a trajetória escolar e afetam diretamente o aprendizado pode receber o atendimento do psicopedagogo. Os casos de bullying, por exemplo, “são de caráter comportamental e, portanto, cabem aos psicólogos e não aos psicopedagogos. O que o psicopedagogo pode fazer é atender às dificuldades de aprendizagem ocasionadas pelo bullying, uma vez que os aspectos sociais e emocionais têm grande interferência na aprendizagem”, ressalta Taís Lima.
Além do bullying, “questões relativas a evasão escolar, ao mau aproveitamento pedagógico e até ao uso inadequado  de recursos como materiais escolares , poderiam ser evitados ou muito reduzidos pela presença permanente da ação psicopedagógica na escola”, revela Irene Maluf, que complementa que “mais jovens estariam dentro do sistema escolar, a marginalidade decairia e as condições de vida futura seriam mais promissoras realmente para todos, como ocorre  nos países aonde a educação é prioridade: lá a miséria e  a contravenção juvenil são muito mais reduzidas”.

PSICOPEDAGOGO & FAMÍLIA

Taís Lima acredita que um dos conflitos mais recorrentes que surgem no âmbito educacional está na relação professor/aluno/família. “O professor acha que a família deve ‘fazer a lição’ com as crianças, o que é bem diferente de ‘participar do processo de aprendizagem do filho’. Tenho visto algumas lições de casa que, sinceramente, as crianças não sabem e não podem fazer sozinhas e os pais também não sabem ensinar como o professor ensina. São funções diferentes: pai e mãe devem ser pai e mãe e não professores. São sim, ensinantes de seus filhos, mas não são professores de seus filhos. Por outro lado, os pais querem que os professores eduquem seus filhos, tarefa essa que cabe a eles. No meio desse conflito fica a criança que já não sabe mais qual o papel de cada um”, salienta.

A família pode praticamente definir o sucesso ou o insucesso da ação interventiva não só do psicopedagogo mas da escola, da aprendizagem  como um todo. Do apoio e confiança dos pais ao trabalho desses profissionais, depende, principalmente no caso de crianças, a segurança emocional e a formação do vínculo, indispensáveis para a aprendizagem acadêmica.
“Se a criança tem um problema no aprender, qualquer que seja, a família deve não apenas ser informada mas deve participar ativamente do processo de avaliação e intervenção psicopedagógica, assim como deve estar atenta diariamente ao desenvolvimento do trabalho escolar do filho. É frequente conseguirmos ajudar uma criança a partir de mudanças no comportamento de seus pais em relação a ela, os esclarecendo quanto, por exemplo, a expectativa de seu rendimento acadêmico, seu desenvolvimento maturativo, seus reais problemas de aquisição de habilidades e conhecimentos, etc”, afirma Irene Maluf.

A família garante sua essencialidade, concebe suas raízes e torna-se capaz de elaborar as próprias competências. Nela, é constituída a primeira impressão de instituição social de ordem formadora. E, na escola, a criança encontra o alicerce para uma formação elaborada. Garantindo uma relação sólida e duradoura entre os dois lados, o resultado é satisfatório – tanto para os alunos, como pais e professores.

Cabe, então, ao psicopedagogo mediar ou sugerir algumas mudanças na rotina da criança junto à família, com foco no melhor aproveitamento do aprendizado. “Quando, após o diagnóstico, damos a devolutiva à criança e aos pais, geralmente sugerimos algumas possibilidades para melhorar o aprendizado, mas, a minha postura como psicopedagoga é trabalhar mais com a criança. Sinceramente não acredito que uma família possa mudar seus padrões de conduta, para atender às necessidades do filho”, ressalta Taís Lima.

Segundo a psicopedagoga, faz parte do aprendizado lidar com as diferenças e há a possibilidade de mudança na escola, “mas não podemos a família. Não mudamos para resolver o problema do outro, mudamos para resolver nossos problemas. É isso que eu procuro trabalhar com as crianças e adultos que atendo: ‘eu quero aprender, apesar de……’”.

AÇÃO & EDUCAÇÃO

Decretada pelo Prefeito do Município de São Paulo, Fernando Haddad, em 24 de abril de 2013, a Lei nº 15.719 dispõe sobre a implantação de assistência psicopedagógica em toda a Rede Municipal de Ensino, com o objetivo de diagnosticar, intervir e prevenir problemas de aprendizagem tendo como enfoque o educando e as instituições de Educação Infantil e Ensino Fundamental.

Dentre os destaques, a lei regulamentada indica:

Art. 1º A implantação da assistência psicopedagógica para os educandos matriculados nas unidades educacionais de educação infantil e de ensino fundamental da Rede Municipal de Ensino far-se-á nos termos da Lei nº 15.719, de 24 de abril de 2013, e das disposições deste decreto.

Parágrafo único. A Psicopedagogia no contexto escolar visa intervir no processo de aprendizagem, sendo seu objeto de atuação o educando em seu processo de construção do conhecimento.

Art. 2º A assistência psicopedagógica tem por objetivo diagnosticar, intervir e prevenir problemas de aprendizagem tendo como enfoque os educandos e as unidades educacionais de educação infantil e de ensino fundamental da Rede Municipal de Ensino.

Art. 3º O serviço de assistência psicopedagógica será realizado por Psicopedagogo, portador de certificado de conclusão de curso de especialização em Psicopedagogia em nível de pós-graduação, expedido por instituições devidamente autorizadas ou credenciadas nos termos da legislação em vigor, e estará vinculado à Diretoria de Orientação Técnico-Pedagógica das Diretorias Regionais de Educação, cumprindo jornada de 40 horas semanais.

Parágrafo único. Caberá às Diretorias Regionais de Educação oferecer as condições que assegurem o pleno desenvolvimento do trabalho dos profissionais referidos neste decreto.

Art. 4º O trabalho do Psicopedagogo será desenvolvido nas Unidades Educacionais vinculadas à Diretoria Regional de Educação de seu exercício, de maneira itinerante, mediante necessidade apontada pela unidade educacional.

Art. 5º O atendimento aos educandos dar-se-á durante o período escolar, em horário coincidente com o da sua jornada diária, em atuação conjunta com o Coordenador Pedagógico e demais profissionais de educação envolvidos.
Reconhecer o trabalho do psicopedagogo como um aliado para a promoção de um ensino sadio é uma forma de identificar a cooperação estudantil como compromisso total com o aluno e a recíproca é legítima. “Quando percebem seus progressos acadêmicos, os alunos se automotivam e passam a protagonizar o processo de ensino-aprendizagem. Todo objetivo com metas estabelecidas e com profissionais capacitados e engajados promove resultados surpreendentes”, finaliza Teresa D’Angelo Santos, coordenadora pedagógica (Educação Infantil e Ensino Fundamental I) do Colégio Vital Brazil.

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