Guia para Gestores de Escolas

“Desenvolver o empreendedorismo como prática pedagógica pode ser uma dinâmica muito valiosa”, diz CEO de startup

Entrevista por Rafael Pinheiro

A educação é pautada, sobretudo na contemporaneidade, por mudanças e movimentos significativos. Dessa forma, localizamos a incorporação de tendências globais em escolas nacionais, desenvolvimento de características conectadas à realidade dos estudantes, bem como o questionamento e a reflexão de métodos tradicionais utilizados no processo educacional. Para conhecer um pouco mais sobre as dinâmicas que despontam nas salas de aula, em especial a inclusão do empreendedorismo como prática (e cultura) pedagógica, conversamos com Eduardo Azevedo, CEO da Explorum, empresa que desenvolveu o método intitulado de Alta Inovação Educacional (AIE) – A Explorum aplica sua metodologia em 26 instituições do Brasil, entre escolas particulares, públicas e projetos sociais, com método validado pelo Ministério da Educação (MEC), no Guia de Novas Tecnologias Educacionais.

Eduardo Azevedo, CEO e fundador da Explorum Educacional

Para Azevedo, a cultura empreendedora pode ser trabalhada em sala de aula através de projetos, com propostas para solucionar problemas reais, com base na ideia do “faça você mesmo”. “Errar e aprender com o erro é a forma mais incrível de fazer uma criança a não ter medo do desafio e saber que aquele erro é um processo de aperfeiçoamento da ideia. Empreender é errar, testar, aperfeiçoar e a partir daí criar um método”.

Confira abaixo a entrevista completa:

Direcional Escolas: Observando a contemporaneidade e as mudanças que atravessam a educação, é possível afirmar que a cultura do empreendedorismo pode influenciar diretamente no desenvolvimento pleno do estudante?

Eduardo Azevedo: A educação está passando por uma mudança, ou pelo menos por uma tendência forte de mudança jamais observada no país, desde a democratização. É fato que os aspectos econômicos estão influenciando diretamente nesse contexto, uma vez que o crescimento do país está comprometido, muito em função da falta de infraestrutura, mas também em função do não investimento em educação por décadas. O Brasil parou de investir em educação e estamos atrasados 30 anos. Dados como PISA, confirmam esse cenário, além dos próprios dados internos do MEC e de organizações não governamentais ligadas à educação.

A dinâmica em sala de aula está ultrapassada e os métodos já não conversam com o jovem. Talvez um dos motivos principais da evasão escolar, principalmente no ensino médio. Por isso, conectar o aluno ao mercado pode engajar os estudantes à escola, mas, principalmente, prepará-lo para o mercado futuro. Atualmente a Explorum está desenvolvendo um projeto social no Capão Redondo, periferia de São Paulo, em parceria com a Samsung e a Alfasol, com esse objetivo, potencializar o empreendedorismo social em áreas de vulnerabilidade, preparando o jovem para o novo mercado de trabalho. O empreendedorismo é um dos propósitos fortes para um aprendizado que esteja conectado com o mundo real, é preparar o jovem para um pensamento crítico e analítico.

Direcional Escolas: É possível afirmar que o empreendedorismo faz parte de uma tendência global? É possível atrelar o aumento dessa cultura empreendedora com a expansão tecnológica na educação?

Eduardo Azevedo: O empreendedorismo, sem dúvida, é uma tendência globalizada, e que tem no Brasil um crescimento espantoso, mais em função da situação econômica do país e menos pelo preparo do empreendedor brasileiro, que muitas vezes inicia essa jornada por falta de opção. Não acredito que o aumento da cultura empreendedora esteja diretamente ligada à questão tecnológica. Aplicativos e a inclusão digital são ferramentas de disseminação e informação, mas não estão, ao meu ver, levando a esse cenário empreendedor, inclusive em sala de aula. É possível dizer que cases digital de startups famosas daqui, ou de fora, estejam contribuindo para que esse assunto seja objeto de estudo em salas de aula. Afinal, é um assunto atual e de mercado. WhatsApp, Instagram, Facebook e outras começaram com um viés puramente tecnológico e hoje são gigantes globais, o que faz muita gente sonhar que um app pode ser um unicórnio (expressão usada no mercado americano para empresas que atingiram valor de mercado de US$1 bilhão).

Direcional Escolas: Como é possível inserir a cultura empreendedora no colégio? Como trabalhar essa temática?

Eduardo Azevedo: A cultura empreendedora pode ser trabalhada dentro de sala de aula a partir de projetos, com propostas para solucionar problemas reais, de acordo até com as ODS da ONU. Planejar, testar e prototipar a partir de projetos simples, com materiais reciclados, lógica de programação sob a ótica da cultura maker – aprendizagem mão na massa – é uma porta incrível para levar o jovem a um mundo de inovação, método criativo e prototipação. A cultura do aprenda errando, do faça você mesmo, ganhou espaço com a chegada dos Fab Labs no Brasil, ainda em 2012, trazido pelo Garagem Fab Lab (dos fundadores da Explorum) e hoje ganha espaço nas escolas em todo o Brasil, como solução para dinamizar o processo educacional para professores e alunos.

Direcional Escolas: A partir de qual idade é interessante começar a trabalhar o tema de empreendedorismo com o aluno? Quais atividades e ações podem ser realizadas?

Eduardo Azevedo: A Explorum trabalha, já em modelo de aula, que está sendo testado em um projeto educacional em escolas privadas e públicas a partir dos 6 anos de idade. Projetos simples, que façam a criança pensar em soluções que possam ter sentido e ter “saída”, como se diz no jargão empreendedor, podem ser trabalhados. Essa cultura não tem nada a ver com startups ou modelagem de empresa, claro. Mas estimular na criança o senso crítico de que o projeto precisa ser uma solução completa e que faça sentido, é uma forma de fazer com que ele comece a pensar de maneira diferente, ter um olhar mais crítico e profundo. Errar e aprender com o erro é a forma mais incrível de fazer uma criança a não ter medo do desafio e saber que aquele erro é um processo de aperfeiçoamento da ideia. Empreender é errar, testar, aperfeiçoar e a partir daí criar um método. 

Direcional Escolas: Desenvolver a cultura empreendedora desde cedo nos estudantes pode refletir de maneira significativa na inserção dos jovens no mercado de trabalho?

Eduardo Azevedo: Desenvolver o empreendedorismo como prática pedagógica pode ser uma dinâmica muito valiosa para que o engajamento do aprendizado dos alunos tenha um propósito claro. Desenvolver o espírito colaborativo e entender a competitividade como parte do processo de aprendizagem e como algo natural, que será encontrado futuramente durante a vida, é tarefa do educador e de um país que quer criar indivíduos criativos e analíticos e que tenham condições para empreender no futuro.

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