Do “não quero” ao “não consigo”: o que a escola precisa saber sobre seletividade alimentar?
Por Carina Scapinelli
A seletividade alimentar deixou de ser exceção e passou a ser rotina nas escolas. Professores observam pratos cada vez mais brancos, monótonos, com pouca variedade e forte resistência a novidades. Embora crianças atípicas apresentem maior prevalência de desafios alimentares, estudos indicam que até 80% das crianças com alterações no neurodesenvolvimento podem ter Dificuldade alimentar, contra cerca de 30% nas típicas, logo o crescimento também é evidente entre crianças típicas. É um fenômeno que vem se intensificando e precisa ser compreendido com profundidade.
É preciso começar pelo princípio: comer é aprendido. Os 3 primeiros meses de vida, o ato é reflexo; depois, torna-se experiência. E é uma experiência extremamente complexa. Engolir exige dezenas de músculos e nervos cranianos. Comer envolve todos os órgãos e todos os sentidos. Sim, todos. É mais difícil que andar e falar.
Além da visão, olfato, paladar, tato e audição, participam também o sistema vestibular (equilíbrio e movimento), o proprioceptivo (consciência corporal) e a interocepção (percepção interna de fome, saciedade e desconforto). Comer é um ato eminentemente sensorial. Se há resistência à comida, muitas vezes a criança está dizendo que não se sente confortável com aquele alimento.
Por isso, diferenciar é fundamental. A seletividade alimentar costuma ocorrer em crianças saudáveis que reduzem variedade, mas conseguem evoluir com exposição gradual. Já a dificuldade alimentar envolve recusa persistente por textura, sabor ou aparência, fuga, medo, sofrimento na hora das refeições e, muitas vezes, prejuízo nutricional. Não é frescura. Não é birra. Muitas vezes, não é “eu não quero comer”; é “eu não consigo comer”.
O que está por baixo desse iceberg vai muito além do comportamento. Pode haver disbiose intestinal, refluxo, alergias e hipersensibilidades, prematuridade, carências de minerais e vitaminas, alterações motoras orais, uso de medicamentos, questões emocionais e psiquiátricas. Deficiências nutricionais podem alterar o paladar e dificultar ainda mais a aceitação alimentar. Ignorar essas camadas é perder a chance de intervir cedo.
Os primeiros anos de vida são decisivos. É nesse período que ocorre o auge das conexões neurais e que se constroem as bases do comportamento alimentar. Até os cinco anos, o paladar e a relação com o alimento estão sendo moldados. A infância marca o paladar para o resto da vida.
Na prática escolar, os sinais aparecem antes mesmo do prato. Crianças que evitam massinha, tinta, areia, grama; que se desorganizam em brinquedos de movimento; que não toleram misturas ou exigem sempre os mesmos utensílios. Para comer, é preciso conforto sensorial. Se o corpo não está regulado, a boca também não estará.
Outro ponto importante é o ambiente alimentar. Alimentos ultraprocessados são hiperpalatáveis, previsíveis, macios e pensados para agradar todos os sentidos ao mesmo tempo. Já os alimentos da natureza variam em textura, aroma e aparência. Um mesmo alimento pode estar diferente de um dia para o outro. Isso exige treino sensorial. Sem esse treino, especialmente nos primeiros anos, a criança se afasta do natural e se apega ao fácil. Perdemos uma janela valiosa do neurodesenvolvimento.
A boa notícia é que a educação nutricional é uma poderosa ferramenta preventiva. Estratégias baseadas em exposição gradual, pequenos passos, vínculo positivo com o alimento e abordagem lúdica mostram que mudança não vem por imposição, mas por curiosidade e compreensão. Brincar ativa neurotransmissores ligados à aprendizagem e à neuroplasticidade. Antes de gostar de comer, a criança precisa gostar de aprender a comer.
E aqui entra o papel da escola.
Muitas crianças passam metade do dia na instituição e realizam ali grande parte de suas refeições. A escola pode ser apenas espectadora do crescimento da seletividade ou pode agir como agente formador. Projetos lúdicos, hortas, atividades sensoriais e diálogo com as famílias ampliam repertório alimentar e constroem autonomia.
Estamos diante de uma crescente. Professores da linha de frente já percebem: cada vez mais crianças com pratos limitados, pouca cor, pouca variedade e possíveis deficiências nutricionais que impactam diretamente o desenvolvimento cognitivo e o desempenho escolar.
A pergunta é simples: vamos assistir ou vamos agir?
Se a infância é o chão que se pisa a vida inteira, a escola é parte essencial desse chão. Treinar o sensorial, valorizar o alimento no prato e despertar o autocuidado não é apenas papel da família. É também compromisso educacional.
Porque alimentar é educar. E educar também é ensinar a comer.

