Guia para Gestores de Escolas

ESCUTAR MAIS…

Por Jane Patrícia Haddad

Acredito que o momento atual na educação é um convite à arte de ESCUTAR. Assim, gostaria de convidar cada um/a de vocês, gestores/as e professores/as, a refletir sobre isso. Recentemente, li um livro que se chama “À Escuta”, do filósofo francês Jean-Luc Nancy[1] (2014, p. 19), onde ele diz: “Escutar é inquietar-se (…) É estar inclinado para um sentido possível, e consequentemente não imediatamente acessível”. “Estar à escuta é sempre estar à beira do sentido, ou num sentido de borda e de extremidade, como se o som musicalmente escutado, quer dizer, recolhido e perscrutado por ele mesmo (…)” (p. 17).

Como estamos escutando a violência na escola, o descaso político, o abandono de crianças e jovens, o sofrimento dos professores? É preciso silêncio interior para refletirmos tais sintomas e não nos conformarmos com respostas rápidas e apressadas que estamos recebendo. Como dizia T. S. Eliot citado por Rubem Alves[2]: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”. Onde está a escuta diante de tanto barulho e dizeres pedagógicos, leis, novas Bases Nacionais, Ranking(s)? Quem vai escutar os professores?

Escutar, primeiro, a cada um de nós mesmos. Escutar com tempo cada fala, cada aluno, cada família. Escutar inquietando-se com o que é falado. A educação contemporânea deve caminhar no sentido contrário da pressa, do grupo, da impulsividade, das verdades prontas, dos diagnósticos apressados e, principalmente, da RAPIDEZ da escola e do mundo. Educar é incompatível com a pressa e com a falta de cuidado ao escutar o outro. Como dizia nosso saudoso Rubem Alves: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.

Escutar, portanto, nesse momento é mais importante do que métodos de avaliar e classificar gerações, que não conseguem ser escutadas em sua dor de existir.

O nosso ofício de professor e professora nos conduz por caminhos não previstos nas Universidades, como nos alertou Sigmund Freud, em 1937, no texto “Análise terminável e interminável”, a espelho do que fizera em 1925, onde ele anuncia a existência de três ofícios impossíveis: psicanalisar, educar e governar.

Aceitar que educar é impossível é compreender a singularidade de cada um, reconhecer suas histórias, bagagens e que sabe ESCUTAR uma outra forma de fazer o ato pedagógico.

Entre o que eu falo e o que o outro escuta existe um mundo. Então, o meu desejo como professora, educadora, mãe, provocadora de desejos, é que: ESCUTEMOS MAIS e Falemos menos…

 

“O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: ‘Se eu fosse você’. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção” Rubem Alves (O AMOR QUE ACENDE A LUA).

[1] NANCY, Jean-Luc. À Escuta. Edições Chão de Feira. Belo Horizonte, 2014.

[2] ALVES, Rubem. A Alegria de Ensinar. ARS Poetica. São Paulo, 1994.

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