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Guia para Gestores de Escolas

Interdisciplinaridade: dos exames globais aos vestibulares locais

A sociedade complexa e interconectada nos coloca diariamente situações desafiadoras que envolvem nosso conhecimento, nossa civilidade e humanidade. Neste contexto, a aprendizagem articulada em diferentes saberes que se integram surge como uma abordagem educacional essencial, capaz de proporcionar uma compreensão profunda e abrangente do conhecimento humano. Assim, fundamenta-se a ideia de que o conhecimento não é compartimentalizado, mas sim interligado e interdependente, integrando conceitos, métodos e perspectivas de diversas áreas do saber para compreender a complexidade do mundo contemporâneo.

É de suma importância discernir os conceitos: no multidisciplinar as disciplinas existem no mesmo lugar; no interdisciplinar elas estão no mesmo lugar e começam a dialogar entre si; no transdisciplinar elas dialogam entre si, até que se tornem uma coisa só.

A integração de diferentes disciplinas na prática educacional traz consigo uma série de benefícios tangíveis como uma compreensão mais abrangente e contextualizada dos problemas e fenômenos, capacitando os alunos para enfrentarem desafios complexos com uma visão mais ampla. Além disso, promove o desenvolvimento de habilidades transferíveis, como pensamento crítico, resolução de problemas e colaboração, que são essenciais para o sucesso pessoal e profissional em um mundo em constante transformação.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), conduzido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), é um caso de exame que, para além das áreas de linguagens, matemática e ciências da natureza, criou questões interdisciplinares envolvendo todas as áreas do conhecimento sob a alcunha da criatividade. São situações problema em que os estudantes precisam encontrar uma solução usando toda a gama de conhecimentos adquiridos ao longo da vida escolar. No Brasil, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é outro exemplo de avaliação que, embora organize as áreas de linguagens, matemática, ciências humanas e natureza, busca aferir o conhecimento acadêmico de forma interdisciplinar e pautada em situações cotidianas. Em ambos os casos, existe uma intenção de desenvolvimento humano e acadêmico por matrizes de competências e habilidades que se integram e convergem para trazer uma percepção de que o conhecimento está em constante transformação.

Ainda que, sob uma ótica mais ou menos elaborada, cada país tenha o seu exame interdisciplinar, que afere as capacidades acadêmicas do estudante para acessar o ensino superior como o Baccalauréat na França, o SAT nos Estados Unidos e o Gaokao na China. Essas grandes avaliações, de escala e impacto nacional, nos últimos anos têm influenciado muitas universidades a adotarem processos seletivos mais elaborados em etapas distintas para conhecer seus futuros estudantes. Renomadas e tradicionais universidades brasileiras como Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) exigem portfólio e entrevistas para cursos como Arquitetura e Urbanismo, Design, Música, Artes Cênicas e Visuais, Moda e até Gastronomia.

Além disso, as duas universidades paulistas têm integrado diferentes modelos de questões em outras fases de suas seletiva: a Unicamp tem cobrado questões de “ciências humanas” no bloco específico dos cursos de exatas e saúde, ao mesmo tempo que propõe questões de matemática no bloco dos cursos das humanidades; a USP tem demonstrado forte inclinação para questões interdisciplinares já na primeira fase de seu vestibular, que em 2024 se organizou como uma prova única, sem a clássica divisão por disciplinas.

Há ainda instituições de ensino superior privadas que têm ressignificado seus processos para cursos extremamente tradicionais como Medicina, Direito e Administração. A adoção de métodos alternativos em vestibulares de faculdades privadas de ponta – como entrevistas e dinâmicas de grupo – tem feito alunos conciliarem os estudos das disciplinas tradicionais com outras estratégias de preparação. Os estudantes recorrem a palestras, debates, simulações de entrevistas, além de livros de ética e filosofia, para ir bem nos testes orais dos processos seletivos de escolas como Fundação Getúlio Vargas (FGV), Insper e Albert Einstein. Há interesse, inclusive em trabalhos sociais e voluntários, desempenho em Olimpíadas nacionais e projetos de empreendedorismo.

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