Guia para Gestores de Escolas

A Matemática e a tal da Excelência Acadêmica

Existe um lugar comum para grande parte dos educadores da Educação Básica, principalmente dos professores de Matemática – em particular, os que atuam em grandes escolas (particulares) de nosso país. Trata-se de enfatizar o caráter de excelência que deve existir na Matemática, o qual chega mesmo a definir o que seria uma escola de alto nível entre as mais conceituadas. Essa ênfase dada ao trabalho extremamente rigoroso nas disciplinas Matemática, Física e Química extrapola tais áreas, atingindo o próprio status da escola. Assim, a chamada escola “forte” seria aquela que apresenta, principalmente, grande rigor dentro das disciplinas que possuem na Matemática seu instrumental mais importante – e, a partir daí, persegue os primeiros lugares nos diferentes rankings de plantão. Sem pensar muito no que estão fazendo, certos gestores e professores parecem gostar muito de ver as “disciplinas matemáticas” servindo de filtro. E forja-se, então, a partir dessa visão, um contexto no qual poucos conseguem participar da tal “escola de excelência”, e outros (que já participam) lutam muito para conseguir concluí-la com sucesso. Mas, até que ponto, essa proposta de se realizar verdadeiras triagens em busca dos “melhores” merece ser avaliada por nós, que trabalhamos com a Educação Matemática?

É muito comum ouvirmos o termo “excelência acadêmica” sendo pronunciado pelos educadores de Matemática, vaidosos de sua importância na vida da escola e dos alunos. É como se a contribuição (sua) na formação dos estudantes fosse decisiva para a vida dos futuros profissionais que estarão sendo engendrados ali. Porém, terá realmente tal importância este trato rigoroso e profundo que a Matemática tem em tais escolas? As aulas – e os estudos dos alunos dessas escolas – estão servindo de fato para a formação de cidadãos mais autônomos e independentes? Aliás, para que estará de fato servindo essa opção pela “excelência acadêmica”? E, por falar nisso, o que poderíamos entender de fato por “excelência acadêmica”?

O termo excelência vem do latim – excellentía – e está relacionado à noção de grandeza, elevação e – mais, até, do que isto – superioridade. Excelente também pode ser aquele que supera os demais. E tal lógica – esta sim – está intimamente relacionada com a luta pelo sucesso nos grandes vestibulares. Akademikós é palavra grega e originou essa forma altiva de se referir a certo tipo de conhecimento, ou, até, ao trato que se pode dar àquilo que se estuda ou se aprende. Vem de longe: de Platão! O filósofo matemático; mestre dos conhecimentos eternos, absolutos e indubitáveis. Para esse sábio vindo dos meios aristocráticos da Atenas do século V a.C., quem não soubesse Geometria não deveria nem pensar em entrar em sua escola – chamada por todos de Academia. E óbvio que não se deve levar as coisas ao pé da letra, mas acadêmico – por questões, até mesmo, da tradição linguística ocidental – envolve (sim) uma noção de verdade, ou mesmo de infalibilidade. Assim, num mundo pautado pelo poder do conhecimento, excelência acadêmica pode dar – por que não? – a clara ideia de poder dos mais aptos. Não é por nada, repito, que certas escolas exibem garbosamente o status de “fortes”. Mas, será que não podemos questionar essa tal força?

É possível afirmarmos – ou apenas sugerirmos – que alunos egressos dessas “escolas fortes” serão melhores que os demais? Até que ponto podemos prever que, a partir do instante em que se veem no quadro de aprovados nas grandes universidades – cujas provas dos respectivos vestibulares, de Matemática, Física e Química, são sempre “impossíveis”, no dizer de quase todos eles -, esses estudantes realmente apresentarão performance acima da média?

Indo mais adiante, podemos aceitar que essa “excelência acadêmica”, buscada durante os tempos de Educação Básica, tornará, de fato, esses alunos mais aptos para transitar pelo mundo com mais chances de serem felizes – inclusive profissionalmente? Podemos vislumbrar que a tal capacidade de realizar processos complexos e complicados, desenvolvida graças ao rigor no trato das matemáticas, conseguirá propiciar efetivamente meios para que possam dar sentido a suas vidas – nos níveis pessoal, universitário e profissional? Que vínculos podem, os próceres de tais instituições, nos garantir que existam entre os conteúdos ministrados, os procedimentos envolvidos e as habilidades geradas, com a vida social, econômica e política que aguarda o egresso?

Seria prudente afirmarmos que os alunos formados nas “escolas fortes” têm uma base maior para a vida universitária? Afinal, ao praticarem treinamentos diários, cegos e repetitivos, não estariam desenvolvendo atitudes passivas e obedientes – posturas (estas) bem distintas daquilo que o bom pesquisador (indivíduo curioso, atrevido e inquieto; destruidor de paradigmas) deveria apresentar? Essa “excelência acadêmica” tão decantada não poderia estar sendo justamente o exercício exaustivo e alienado do cumprimento de regras e de obediência? Mais, ainda: esse fazer matemático cego, sem grandes problematizações acerca do mundo desigual e contraditório em que vivemos, não estará reforçando – através dessa tão propalada neutralidade dos saberes matemáticos (um absurdo para quem analisa com critérios a ciência dos números) – um distanciamento de posturas mais críticas em relação ao mundo e à sociedade?

Talvez seja oportuno que nos perguntemos a que forças e a que projeto de mundo interessa esse tipo de excelência. Permito-me, aqui, questionar seriamente se o verdadeiro e maior potencial da educação matemática – a construção histórica de emancipação humana – não está sendo deixado de lado quando se vê como “excelência” essa atitude mecânica e cega que é impingida aos nossos alunos. A matemática pode mais do que isto. Pode ser, sem sombra de dúvida, portadora de uma abertura maior (e possível) de horizontes e pensamento. Sim, pois, via quantificações, mensurações, comparações e análise lógica e profunda do mundo, é possível criar germes de questionamentos, indignação e, por que não, de mudança. Pensar no que queremos para nossos alunos pode ser o mesmo que pensar em que mundo desejamos para esta e para as novas gerações. O que está por detrás dessa “neutralidade dos números”? A quem isso está beneficiando? Quais distorções não poderíamos permitir que fossem percebidas, na informação, nos discursos, nas propagandas (inclusive ideológicas), por nossos alunos? Afinal, ao educarmos, preparamos apenas pessoas que saibam professar assertivas?

Atrevo-me a dizer que os entusiastas da “matemática forte” podem estar perdendo grande oportunidade de ajudar – com seu trabalho diário, em sala de aula – na formação de pessoas melhores. Gente capaz, sim, de criar, de transformar, de fato. Aquilo que ouvimos tanto em nosso país, dito democrático: construção de justiça, vida melhor e direitos, a partir de uma educação de qualidade. Proponho, então, aos educadores da matemática que comecem se questionando sobre o que significa qualidade. E, depois, que diabos de “excelência” é essa, afinal?

A história da Matemática, para quem a observa com cuidado, sempre apresenta luta humana por vida mais plena – compreensão e domínio da natureza, superação de crises, busca de liberdade. Em outras palavras, invenção, a cada passo, de realidades melhores. Mas, hoje, sinto que essa tal “excelência acadêmica” parece estar meio perdida no contexto. Ou o mundo já está plenamente resolvido, ou essa história está mal contada.

 
joao-luiz-muzinatti
Prof. João Luiz Muzinatti é Mestre em História da Ciência. Engenheiro, é também professor de Matemática, Filosofia e Ciências em nível de graduação, pós-graduação, e Ensino Fundamental e Médio.
Atua ainda como diretor do ABC Dislexia (com atendimento a alunos, consultoria, cursos e palestras em Educação), além de consultor do MEC (Ministério da Educação) em Filosofia para a TV Escola – programas “Acervo” e “Sala de Professor”. Foi diretor do Colégio Santa Maria, em São Paulo; coordenador pedagógico do Colégio Franciscano Pio XII (também em SP); e diretor do Espaço Ágora – Terapêutico e Educacional.
Trabalhou como engenheiro daFlender Latin American – consultor no Chile, e escreveu e lançou o livro de poesias “Inventário de mim” (Ed. Scortecci) .
Mais informações[email protected] ; www.abcdislexia.com.br 

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