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Guia para Gestores de Escolas

O currículo de uma escola participativa

Por Celso Antunes

Caso fosse possível expressar por um sinal gráfico ou um ícone a diferença fundamental entre o professor de antigamente e o professor atual – e, portanto, sintonizado com as novas formas de aprender – acredito sinceramente que esse ícone ou sinal gráfico seria o ponto de exclamação (!) para o professor do passado e o ponto de interrogação (?) para o professor dos novos tempos.

Exagero? Nem tanto.

Quando pensamos na concepção do professor de trinta ou quarenta anos atrás era impossível não o perceber como o “proprietário dos conhecimentos”, verdadeiro “donatário do saber”, que tudo conhecendo, concebia suas aulas como expressão de sua erudição em tudo responder. O conhecimento, nesses tempos, era visto como algo estático, finito e que, pertencendo a alguns, era passado a outros.

Uma “boa aula” era aquela em que os alunos entravam com pontos de interrogação (Quem descobriu a América? Qual a produção de batatas, em 1934, na Somália? Qual a raiz quadrada de 16 elevado a terceira potência? E outras) e a sumidade expressa pela impoluta figura do professor, a todos respondia, exigindo a decoreba e a consequente transformação de pontos de interrogação, pelos pontos de exclamação. Nessa época, bom professor era o que mais sabia, ótimo aluno era o que melhor decorava e a mente humana era vista como uma lousa vazia que as aulas, pouco a pouco, tratavam de preencher. Não havia vexame maior que o professor ignorar uma resposta e, se isso acontecia, era atirado no purgatório impuro dos incompetentes crassos.

Hoje tudo isso mudou e o grande professor, o excelente mestre, é aquele que sabe transformar respostas em novas perguntas. Todos que se insinuam como verdadeiros mágicos na construção da curiosidade e no desafio de seu assumir como arquitetos de questões, propositor de problemas. Essa mudança deu-se não apenas porque há trinta ou quarenta anos atrás nada se sabia sobre o cérebro humano e a maneira como processava a informação, transformando-a em conhecimento, como também porque se vivia priscas eras de saberes estáticos, onde o bom pai era apenas a imitação grotesca do excelente avô.

Tal como a evolução da medicina veio ensinar que não mais se cura dor de barriga com Elixir Paregórico e que nada pode piorar uma infecção que banhá-la em mercúrio cromo, a evolução da Educação ensina-nos que o conhecimento não é algo que vem de fora, que se transmite e que a memória acumula, mas sim uma construção interativa e dinâmica que a mente executa quando transforma desafios em busca e, assim, a busca em saberes. Aprender, hoje em dia, é resolver situações complexas e saber usar o que aqui se conquista ao desafio que logo à frente vai por certo surgir. Essa mudança no conceito de conhecimento e de aprendizagem, implica em uma mudança estrutural nos currículos.

Já não se pensa esta ou aquela disciplina, este ou aquele material didático, como acúmulo de pontos de exclamação, mas como desafios intrigantes, questões curiosas que um bom professor pode propor e, ao satisfazer-se, novamente propor. A nova educação veio atirar pelo lixo os conhecimentos finitos, os saberes estáticos, a ridícula e absurda prepotência da memória adestrada e faz nascer em seu lugar um novo professor, desafiador de argúcia, propositor de problemas, semeador de caminhos. Ao saber se uma aula é excelente e conduz à construção de conhecimentos, formação de significados e contextualização de saberes, repare com quais e quantos sinais gráficos de interrogação e exclamação ela é construída.

Se predomina a certeza da resposta ao invés do encanto e fascínio da pergunta, lamente o currículo e tenha pena do professor. Lembre-o que dinossauros já não existem mais.

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