Guia para Gestores de Escolas

Onda de ocupações dos estudantes da escola pública do Estado de São Paulo

Por Guga Dorea

Dando continuidade ao que estou chamando de trilogia Educação Infantil – Ensino Fundamental e Médio de meus filhos (leiam meus artigos anteriores), estamos chegando ao fim de 2015 com a já história onda de ocupações em mais de 200 escolas em todo o Estado de São Paulo. Convido então a você, leitor, a viver essa experiência junto comigo por uma dessas ocupações. Boa leitura.

 

 

LIÇÃO DE CIDADANIA E NECESSIDADE DE MUDANÇA:

PORQUE OCUPAR A ESCOLA ALVES CRUZ?

Eu estava tranquilo em meu cotidiano, quando o celular tocou. “Pai, venha para a escola. Estamos preparando a ocupação”. Naquele instante, fluxos inesperados interromperam minha vida aparentemente linear e me carregaram para o inesperado.  Minha filha estava prestes a fazer História. Corri para a escola e nada havia acontecido. A ocupação não havia dado certo.

Voltei a meu dia a dia, mas de novo o celular tocou. “Pai, agora vai. Tem muito mais alunos dispostos e tem até advogado por aqui”. Cheguei lá e encontrei um ambiente super propício. Alguns estudantes, já dentro da escola, autoproclamaram a ocupação e outros, que estavam fora, queriam entrar. Até que a ocupação se transformou em realidade. A escola estava ocupada.

Porque ocupar a Escola Estadual de Tempo Integral Prof. Antonio Alves Cruz?,

 

Essa pergunta foi feita, logo na sequência, porque a escola não se encontrava na lista das que podem ser fechadas pelo projeto de Reorganização do governo do Estado de São Paulo. “Trata-se de um protesto de apoio”, declarou logo um aluno. Mas como toda ofensiva, vem logo a  contra-ofensiva. Não poderia ter sido diferente nesse caso. Foram várias, mas quero destacar a que mais me impressionou. Estudantes contra a ocupação reivindicando provas e aulas. Eram em sua maioria alunos do terceiro ano querendo se formar e partir para outra na vida. A princípio, nada mais justo.

Porém, o que mais me impressionou foi a forma violenta da reação. Até cadeiras foram lançadas para dentro da escola ocupada. Como pai, fiquei extremamente preocupado com a integridade física de minha filha e a de todos os estudantes. Confesso que cheguei a propor: “abandonem a ocupação. Vocês estão em minoria e já são vitoriosos”.  Eles chegaram a desistir, mas, no final, persistiram e insistiram. Chegaram a ter duas assembléias, a última inclusive com todos os alunos. O consenso não veio e, mesmo, em minoria (uma minoria que faz e fez a diferença), eles permaneceram ocupados.

Fiquei de plantão, praticamente em toda a ocupação, por conta de minha preocupaçãao com a integridade física deles e também, não poderia ser diferente, por apoiar o movimento. E porque, mesmo sabendo que estudam em uma escola considerada modelo pelo Governo do Estado, eles não desistiram?

            Tenho as minhas hipóteses que, acredito, se confirmaram após ter feito uma entrevista informal com duas alunas que ocuparam a escola, além das muitas conversas informais que tive durante a ocupação. A meu ver, foram três os motivos principais: SOLIDARIEDADE, ESPÍRITO DE COLETIVIDADE E NECESSIDADE DE MUDANÇA.

Eis entãoas declarações que vieram a confirmar minha hipótese:

DECLARAÇÃO 1:

“Nós ocupamos para apoiar as outras escolas. O Alves Cruz tem muita visibilidade. É vista como uma escola modelo para o governo. Somos a única escola em tempo integral que ocupou e, para nós, não é uma escola modelo. Fomos enganados. No periodo da manhã tem as aulas tradicionais e durante a tarde teria que ter aulas mais diversificadas. Mesmo as que eles chamaram de diversificadas acabaram virando aulas para fazer lição em casa. A única realmente diversificada é a eletiva (momento em que os professores propõe e os alunos escolhem em função de seus interesses) e tem o clube (único momento em que os projetos dos estudantes são realmente colocados em prática. Tem música, teatro e muito mais).

Tem mais aulas de Matemática e Português, mas não tem de Filosofia e Sociologia. São aulas que fazem as pessoas pensarem, mostram a sociedade do jeito que ela é. Eu sei que Matemática e Português são importantes, mas eles dão foco mais para as exatas e menos para as aulas que, com discursos mais complexos sobre a realidade, nos fazem pensar. Na prática, são aulas muito faladas que ficam muito chatas, desinteressantes e enjoadas. A escola não é  apenas a sala de aula, com aulas sem signficados que, se nós não aprendemos, somos chamados de burros.

Aprendi muito com as aulas livres na ocupação. Teve aula de sexismo, peça de teatro falando sobre a desigualdade social e a exploração no mercado de trabalho. Foram aulas que me fizeram pensar no todo. Teve grupo de Carimbó. A ocupação mostrou que o adolescente também pensa.

 

DECLARAÇÃO 2:

Ocupamos justamente porque o Alves Cruz não é uma escola modelo. E também não gosto que pense que somos uma escola modelo. Não gosto de comparar. Tem um desnível muito grande entre nossa escola e as outras. Ocupamos por solidariedade, pois também somos contra a reorganização das escolas. Daqui para frente, o estudante tem que ser consultado.

Não existe escola modelo. Na verdade, eu perco nove horas na sala de aula. A parte mais diversificada não é tão útil assim. Não aproveitamos de verdade. No papel, esse modelo do Alves Cruz é bonito. Na prática o que temos são aulas super cansativas. Sei que são importantes, mas chegamos a ter seis aulas de Matemática e seis de Português e apenas duas de Sociologia e duas de Filosofia.

Eu não consigo ficar o tempo todo na sala de aula e sou vista como aluna problemática. Mas as aulas são desinteressantes. Só temos de escutar e anotar e não podemos pensar e pesquisar. Não gosto também do jeito que os estudantes sentam, em fileira. É como se fosse proibido não aprender. Quem não consegue absorver todo o conteúdo é barrado.

Na verdade, não existe incentivo. A própria Eletiva está mudando. Os professores falam que é para escolher por necessidade, a partir de nossas dificuldades, e não por interesse, como deveria ser. Acaba então virando uma aula reforço e não um espaço em que colocamos em prática nosso interesse, o que gostamos de fazer. Acaba não tendo tempo nem para conversar. Foi na ocupação que aprendi a conversar com as pessoas, a ver a educação com outros olhos. Isso porque teve muitas rodas de conversas e aulas livres”.

No Alves Cruz e em praticamente todas as outras escolas ocupadas, os estudantes tiveram aulas de história, Sociologia, Filosofia, Física, Teatro,  Culinária e muito mais.Todos que me conhecem sabem que minha entrada na area da educação foi por conta do nascimento de meu primeiro filho, que tem a Sindrome de Down. E o que sempre defendi foram aulas mais significativas para a sua condição. O que os estudantes citados acima reclamaram foi justamente a falta de um ensino mais significativo para a condição de cada um deles.

Ora, o que os estudantes que ocuparam as escolas tiveram foram justamente aulas mais livres e significativas. Se eles começarem a defender, no coditiano da sala de aula, o um ensino mais significativo para eles, a escola não será mais a mesma. Portanto, o que defendo para meu filho foi exatamente o que aconteceu durante as ocupações, é o que defendo para a minha filha, que participou ativamente da ocupação.

Como diria, inclusive, o especialista em alfabetização José Pacheco, cada aluno, independente de sua condição, aprende de um jeito diferente.  Trata-se aqui de quebrarmos a dualidade excludente que separa os seres humanos em iguais de um ladoe negativamente diferentes de outro.

Com tudo isso, acredito ser de fundamental importância iniciar um amplo debate sobre qual é esse projeto de Escola em Tempo Integral do governo do Estado de São Paulo. Em 2012, algo em torno de 200 educadores, incluindo a rede de educadores intitulada de Românticos Conspiradores, se reuniu em encontros presenciais e virtuais para construir o III Manifesto pela Educação (III Manifesto pela Educação Brasileira – Mudar a Escola, Melhorar a Educação: Transformar um País!), em um rico e instigante processo de criação coletiva.

O Manifesto aponta para a necessidade de um ensino integral com os estudantes ficando mais tempo na escola. São dois conceitos de integral: o relacionado ao tempo e o que abarca a integralidade do ser humano em sua complexidade. Isso sem falar do texto referência do Ministério da Educação sobre o que deveria ser uma Escola em Tempo Integral.

No próximo artigo, encerro essa trilogia, pois filhos estão na iminência de se formarem no Ensino Médio. O que ficou para eles dessa experiência de toda uma vida? Valeu a pena? E que futuro os aguarda? Até a próxima.

Guga Dorea é Jornalista e Sociólogo. Atua hoje como educador em cursos de Pós – Graduação na área da Inclusão Social pela UNISED, além de criador do projeto “Conectando Diferenças: oficina de escrita criativa” para Pessoas com Deficiência ou dificuldades de aprendizagem e de  participar do Grupo de Estudo sobre a Filosofia da Diferença da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

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