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Guia para Gestores de Escolas

Plataforma de IA: Planejamento pedagógico com Inteligência Artificial

As discussões que compreendem a inserção tecnológica nos variados setores das escolas cresceram de forma expressiva nos últimos anos. Essas discussões, que ganharam novos contornos, especialmente pela utilização de ferramentas da Inteligência Artificial (IA) na educação, ampliaram discursos polarizados: de um lado, acreditavam nos benefícios que a IA poderia proporcionar; por outro, combatiam a utilização da IA em qualquer área educacional.

Embora esses discursos polarizados apareçam (e permaneçam) em algumas escalas, é preciso destacar que a tecnologia – e as suas funcionalidades – está presente de forma massiva em variados momentos do nosso cotidiano. Dessa forma, adaptar recursos e ferramentas tecnológicas às demandas educacionais, com intencionalidade clara, pode ser um movimento proveitoso para todo o ecossistema escolar, especialmente na etapa de planejamento pedagógico de professoras e professores.

Conversamos com Tadeu da Ponte, empreendedor do setor, matemático, professor e doutorando em IA Aplicada na Alma Mater Europaea, que nos contou sobre os benefícios da IA no planejamento pedagógico, as tendências da IA para 2026 e apresentou dicas para gestores e gestoras escolares que pretendem contratar plataformas de IA. Confira abaixo a entrevista completa:

Direcional Escolas: Como a Inteligência Artificial pode se tornar uma aliada na etapa de planejamento pedagógico?

Tadeu da Ponte: A Inteligência Artificial pode se tornar uma grande aliada do planejamento pedagógico em três frentes bem objetivas.

Em primeiro lugar, pelo tempo que ela devolve ao professor e à equipe pedagógica. Ao automatizar tarefas repetitivas — como preparar aulas, criar atividades e organizar materiais — a IA reduz o “trabalho invisível” do docente e libera energia para o que realmente move a aprendizagem: pensar a intencionalidade do percurso, acompanhar evidências, ajustar rotas e dar devolutivas de qualidade. Uma pesquisa da Gallup com 2.232 professores da educação básica pública nos EUA indica que usuários semanais de IA estimam economizar, em média, 5,9 horas por semana, o equivalente a seis semanas ao longo do ano letivo — tempo que muitos reinvestem em feedback mais cuidadoso, aulas mais individualizadas e comunicação com as famílias. (Gallup.com)

Em segundo lugar, pela capacidade de lidar com a complexidade textual do alinhamento BNCC → currículo → planejamento. Esse desdobramento é trabalhoso e exige consistência: traduzir habilidades em objetivos claros, selecionar conteúdos, propor estratégias, desenhar avaliações e critérios (rubricas), além de organizar registros que deem visibilidade ao processo. A IA generativa tem uma fortaleza justamente aí: apoiar o educador a estruturar, revisar e coerentizar esses textos, acelerando versões iniciais e sugerindo alternativas — sempre com validação humana e alinhamento ao Projeto Pedagógico. Ela não substitui o julgamento profissional, mas aumenta a capacidade de transformar diretrizes em planos executáveis e acompanháveis.

Em terceiro lugar, como “copiloto” na produção de artefatos pedagógicos e na diferenciação. Na prática, é aqui que muitos professores já percebem valor imediato: a IA ajuda a criar atividades, listas, avaliações e variações do mesmo material para diferentes níveis de proficiência — e também apoia adaptações para Educação Especial, desde que respeitados critérios pedagógicos e de acessibilidade. Na própria pesquisa da Gallup, os usos mais frequentes incluem preparar para ensinar, criar atividades/folhas de exercícios e modificar materiais para atender necessidades dos estudantes. (Gallup.com) Além disso, quase 60% dos docentes concordaram que a IA pode melhorar a acessibilidade de materiais para estudantes de educação especial, o que abre uma frente importante de inclusão — desde que a escola tenha combinados claros, governança e formação.

Um ponto de atenção, para manter o ganho com segurança: o uso precisa de orientação institucional. Ainda há um grande vazio de formação — na mesma pesquisa, a maioria dos professores relatou não ter recebido treinamento para usar IA no trabalho. Por isso, quando a escola combina capacitação + regras de uso (especialmente sobre dados e privacidade), a IA tende a virar aliada de verdade do planejamento, e não apenas um atalho de produção de texto.

Direcional Escolas: Como utilizar as ferramentas de IA nesse planejamento? Na prática, como inserir essas ferramentas utilitárias na rotina pedagógica?

Tadeu da Ponte: Em 2025, a IA passou a entrar, de fato, no bastidor do planejamento pedagógico — principalmente pelas interfaces conversacionais padrão (ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity etc.). Na prática, é um fluxo do tipo “Prompt → Processamento → Resposta”: o professor descreve o objetivo (habilidade/tema/turma/tempo), e recebe de volta um texto-base (sequência didática, atividade, rubrica, roteiro de aula, devolutiva). Esse uso já aparece com força no cotidiano porque reduz atritos do trabalho pedagógico e acelera primeiras versões de materiais — algo que relatórios internacionais já observam desde a popularização dos chatbots generativos, inclusive para criar planos de aula e tarefas. (U.S. Department of Education).

Ao mesmo tempo, ainda é comum que isso aconteça de forma individual, com contas pessoais e do próprio dispositivo do professor — o que reforça a importância de a escola sair do improviso para uma adoção mais institucional: formação, combinados de uso e governança de dados. A UNESCO tem chamado atenção justamente para esse ponto: sem regras e orientações claras, a privacidade e o uso responsável ficam vulneráveis e as instituições tendem a estar pouco preparadas para validar ferramentas e práticas. (UNESCO)

Para 2026, a tendência é avançar do “texto que volta pronto” para aplicações mais agênticas e integradas às plataformas escolares — um fluxo “Prompt → Processamento → Ação”. Em vez de a IA só “responder”, ela começa a atuar dentro do ambiente de aprendizagem: por exemplo, o estudante registra seu raciocínio ao resolver um problema e a IA gera um esquema visual do que está faltando, sugere a próxima etapa e até aponta quais trechos do material precisam ser revisitados. Isso já aparece na literatura recente como um movimento de crescimento de agentes educacionais baseados em LLMs, com foco em intervenções mais situadas e acionáveis no percurso de aprendizagem. (MDPI)

O ganho para a escola é duplo: melhora a experiência do aluno no ato de aprender e, ao mesmo tempo, vai constituindo base de dados e conhecimento no nível institucional, abrindo caminho para personalização mais robusta e melhoria de processos (planejamento, acompanhamento, comunicação) com mais consistência.

Na prática, como inserir na rotina pedagógica sem virar “moda do momento”?

  • Comece pequeno e intencional: piloto em 1–2 componentes curriculares, com um objetivo claro (ex.: melhorar devolutivas, diferenciar atividades, alinhar avaliações à habilidade).
  • Crie um “ritual” de uso: IA entra no planejamento semanal como etapa de rascunho e revisão (não de decisão final), alimentando reunião pedagógica com versões, alternativas e evidências.
  • Institucionalize o básico: contas da escola, orientações de prompt, checklist de qualidade (BNCC/currículo, tempo didático, adequação à turma) e regras do que pode/não pode ser enviado (especialmente dados sensíveis). (UNESCO)
  • Integre ao que a escola já usa: o valor cresce quando a IA conversa com LMS, avaliações, trilhas e registros — reduz retrabalho e melhora a leitura pedagógica do todo.
  • Transparência com famílias e estudantes: explique objetivos, benefícios e limites; a confiança aumenta quando a comunidade entende como e para quê a IA está sendo usada e como os dados são protegidos. (UNESCO)

 

Direcional Escolas: Quais são as plataformas de IA voltadas para o planejamento pedagógico mais utilizadas hoje?

Tadeu da Ponte: Hoje, quando falamos em plataformas de IA para planejamento pedagógico “mais usadas”, o que aparece com mais força na prática é um mix de três famílias (mais do que um único “vencedor”):

  1. IA conversacional generalista (uso utilitário, no bastidor)
    ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot e similares seguem sendo o caminho mais disseminado para rascunhar planos de aula, sequências didáticas, rubricas, feedbacks e adaptações — pela facilidade e velocidade.
  2. Plataformas educacionais que já fazem parte do ecossistema da escola e incorporam IA
    No Brasil, aparecem muito as soluções que já vivem o dia a dia da escola e usam IA para personalização, diagnóstico, relatórios e apoio ao professor (ex.: adaptativas e de escrita). Em países mais avançados, o padrão é semelhante: plataformas de aprendizagem (matemática, leitura, currículo digital) e assistentes educacionais que ajudam a planejar e ajustar intervenções. Foi pioneira nessa direção o Khanmigo, assistente de ensino integrado à plataforma Khan Academy.
  3. Assistentes de professor embutidos em ambientes de aprendizagem e avaliação
    Ferramentas que aceleram “o chão da escola”: geração de atividades, diferenciação por níveis, feedback automático, montagem de avaliações e painéis de acompanhamento.

Tendência principal para 2026: menos “novas plataformas só de IA” e mais IA incorporada nas plataformas de ensino já existentes (LMS, sistemas de conteúdo, avaliação e gestão). Ou seja, a IA deixa de ser um “site separado” e vira uma camada nativa do que a escola já usa — com recursos mais agênticos (não apenas “responder em texto”, mas executar ações: sugerir intervenções, adaptar trilhas, gerar relatórios e apoiar decisões pedagógicas com dados).

 

Direcional Escolas: Quais as dicas para gestores/as que desejam contratar essas plataformas de IA?

Tadeu da Ponte: Para contratar plataformas de IA com segurança e impacto, gestores/as precisam olhar além da ferramenta: a adoção funciona quando a escola avança de forma harmoniosa em quatro frentes(1) direcionamento e suporte da liderança, (2) formação das equipes, (3) governança e regras de uso, e (4) infraestrutura, dados e ferramentas.

Na prática, isso significa planejar e implementar de modo integrado (com objetivos pedagógicos claros, combinados de uso e capacitação), e avaliar a integração da plataforma com o ecossistema tecnológico já existente na escola (LMS, avaliações, gestão acadêmica), para evitar retrabalho e garantir consistência de dados e processos.

 

 

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Tadeu da Ponte – [email protected]

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