Guia para Gestores de Escolas

Professor: o missionário na empreitada da mudança da educação

Cada professor é um missionário. Se a origem do termo remete a um trabalho religioso de promoção social em lugares que precisam de reavivamento da crença, aqui peço licença poética para adaptar para a realidade da educação e enxergar os docentes como aqueles que renovam nossa esperança na promoção de experiências educacionais diariamente.

É claro que diante da era tecnológica que nos encontramos, outros fatores como os computadores, os tablets e os laboratórios bem equipados a favor da alfabetização digital ou ainda os métodos inovadores de ensino brilham os nossos olhos. Mas, lembremos o elemento central para o  desenvolvimento dos alunos: o bom professor, que confere valor à articulação dos processos de aprendizado utilizando-se dessas ferramentas citadas.

Em sala de aula são eles que engajam e que convertem informação em conhecimento. E a eficácia do aprendizado também está relacionada ao professor. Vejamos o que diz uma recente pesquisa conduzida na Austrália:

  • As crianças que aprendem com professores bem preparados aprendem o equivalente a um ano e meio a mais de estudo em comparação com as que possuem aulas com profissionais medianos;
  • Já os estudantes que passam pela sala de aula de profissionais menos preparados aprendem metade ou menos do que deveriam em um ano;
  • O impacto da qualidade do docente se revela em oportunidades como mais chances de cursar faculdade, ter um bom emprego, levar uma vida mais saudável e contar com rendimentos maiores ao longo da vida.

E o estudo não para por aí. Os pesquisadores foram além e forneceram subsídios relacionados ao impacto financeiro do tema:

  • Diminuir o número de alunos por sala de aula custa cinco vezes mais do que formar e manter um bom professor e dá quatro vezes menos retorno;
  • A melhoria das instalações da escola também custa o dobro do valor do bom professor e é nove vezes menos eficaz.

Então gestores, vamos refletir mais um pouco: estamos no limite para olhar com mais atenção e seriedade para a necessidade de investir no aprofundamento da capacitação daqueles que são os atores fundamentais dos nossos negócios.

Faça um exercício. Quando saiu da universidade, você se sentia plenamente preparado para atuar na carreira escolhida? É bastante comum encontrarmos pessoas que diriam não, o que é plenamente normal já que nós continuamos aprendendo ao longo da vida e nos preparando para trazer melhores práticas que nos ajudam na trajetória profissional. Isso é o que chamamos de desenvolvimento continuado ou contínuo.

Entretanto, quando trazemos esse recorte para a profissão professor, a principal para formar todas as outras profissões, o abismo entre o mercado de trabalho e a formação é largo e profundo demais. Nos cursos acadêmicos de pedagogia e de letras, por exemplo, ainda são poucas as oportunidades de prática assistida em substituição à reflexão apenas pautada pela teoria e falta atualização em termos de abordagem didática relacionada às metodologias ativas que precisam ser adotadas na contemporaneidade. É urgente a necessidade de integrarmos universidades, rede de ensino e escola em uma espécie de tripé formativo com o intuito de manter esses profissionais atualizados e menos angustiados ao lidar com as turmas.

Diferente do que se acreditou por muitas décadas, ser professor não depende única e exclusivamente de vocação. Saber dar uma boa aula é uma habilidade que pode ser adquirida e desenvolvida com base em três etapas: capacitação, formação, desenvolvimento acompanhado. É quase como preparar um atleta para um desempenho de sucesso. E é dessa forma que fazem os países com os melhores resultados educacionais do mundo.

No exemplo da Finlândia isso fica bem claro: entre as nações melhor colocadas no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a profissão é extremamente popular e concorrida. O segredo da qualidade está na autonomia para ensinar, o que é conquistado durante o alto nível de formação pelo qual os docentes passam. Todos os que atuam na Educação Básica, por exemplo, possuem mestrado.

Em comum com outros países de bom desempenho educacional, ensinar ao professor métodos de como dar aula é um item de igual ou maior importância no comparativo com dominar conteúdos específicos. Entre as ações de maior impacto na qualidade do aprendizado estão o planejamento das aulas, o controle do tempo, a assertividade e a capacidade de prender a atenção dos alunos. É esse conjunto que dá a base para que o docente seja capaz de desenvolver no aluno a capacidade de análise e de raciocínio lógico, mais do que ensinar pontos factuais que se encontra em uma rápida busca no Google.

Elevar a qualidade da formação docente é uma das questões mais urgentes da nossa Educação. E isso vai além de simplesmente oferecer-lhes nível superior. Dados recentes do Censo Escolar revelam que somente 45,9% dos docentes dos anos finais do Ensino Fundamental e 53,8% dos docentes do Ensino Médio têm a formação adequada nas disciplinas que lecionam no dia a dia. Quando o assunto é inglês, o índice deve ser ainda pior.

 

A deficiência encontrada na Educação Superior precisa ser absorvida pelas instituições empregadoras, assumindo que são responsáveis pela formação dos professores em uma segunda etapa, dando-lhes condições de atuar com metodologias engajadoras, que despertem o interesse dos alunos. Uma capacitação continuada de qualidade, que faça com que o professor atue na escola com a segurança do que vai ensinar e de como vai ensinar. Esse é o mínimo que podemos fazer pelo futuro de um País que nunca precisou tanto repensar o seu futuro.

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