Guia para Gestores de Escolas

Sobre o “transtorno de dependência da Internet”: debate necessário

“A capacidade de selecionar, avaliar e elaborar informações, uma tendência que nasceu com a Internet, está se tornando hegemônica.”

No mês de janeiro publicamos artigo sobre o modo como a inclusão de um novo diagnóstico no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) havia sido enunciado pela revista Science, a saber, o “transtorno de dependência da internet” (Confira em http://migre.me/dXf9M).

Na sequência, fomos informados de que a inclusão desse diagnóstico não é mais conjectura, mas está decidida e vai aparecer em um apêndice do DSM-V (ou seja, na 5ª Edição do Manual). Também consultamos a primeira obra que apresenta um panorama da questão, a partir da reunião de pesquisas provenientes de diversos centros de investigação e tratamento desse transtorno, a saber, Internet Addiction – A Handbook and Guide for Evaluation and Treatment, editada por dois especialistas no assunto: o Dr. Kimberly S. Young, diretor clínico do Center for Internet Addiction Recovery, e pelo Dr. Cristiano Nabuco de Abreu, Coordenador do Grupo de Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

A primeira parte da obra procura mostrar o problema: aborda o comportamento dos indivíduos fretne ao uso da internet e como identificar a ocorrência de transtornos associados. Já a segunda parte do compêndio apresenta a solução: aborda psicoterapia, tratamento e prevenção.

Dentre os critérios do diagnóstico, alguns indicadores me parecem um tanto vagos, como o que define um “usuário pesado” como uma pessoa que passa 8,2 horas por semana na Internet. Porém, quando se considera que a internet tem se tornado não apenas um ambiente dos que desenvolvem, digamos, um estilo de vida digital, mas, e sobretudo, uma ferramenta indispensável ao aprendizado e ao trabalho, o número de horas que a maioria dos internautas passam na rede certamente ultrapassa a de um “usuário pesado”.

Outro ponto que poderia ser problematizado é o que enfatiza o “comportamento antissocial” como um traço comum presente na personalidade dos viciados em internet. Quanto a isso, achei curioso que os protagonistas dos últimos tiroteios perpetrados em escolas, assim como o do massacre na Noruega, não tivessem perfil em redes sociais. Claro, poderiam ter fakes, mas não se descobriu nada quanto a isso, não que eu saiba. Digo isso porque não é raro que alunos tímidos sejam enquadrados como antisossiais.

Passando agora dos critérios diagnósticos para o que observo em minha prática escolar, tenho a impressão de que até 80% dos meus alunos poderão ser enquadrados no transtorno caso se utilize esse critério da quantidade de horas frente à internet para se definir um “usuário pesado”. Ora, como dentre as formas de tratamentos preconizadas, existe a possibilidade de haver uma abordagem medicamentosa, receio que diagnósticos sejam feitos de forma um tanto precipitada, como ainda vejo ocorrer com o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e que medicamentos sejam prescritos de forma imprudente. Se essa abordagem vier a se tornar hegemônica, ela poderá dificultar ainda mais que a escola empreenda uma integração efetiva da tecnologia nos processos de aprendizagem e passe a se comportar de modo excessivamente vigilante, buscando identificar transtornos do comportamento.

Por fim, as pesquisas com usuários a partir das quais o diagnóstico se apóia foram realizadas durante a década de 1990 e os anos 2000. A obra trabalha com pesquisas realizadas até 2009. Meu ponto aqui é o seguinte: desde 2009 estamos vivenciando uma nova onda de Revolução Tecnológica, baseada na expansão de plataformas móveis e computação na nuvem, que tem reconfigurado dramaticamente a experiência dos usuários. Nesse novo ambiente, é comum que os usuários permaneçam conectados a maior parte do tempo, o que não significa em atividade na rede.

Com a evolução das linguagens de programação, as pessoas passarão a ser notificadas pelos aplicativos sobre aquilo que lhes importa. A capacidade de selecionar, avaliar e elaborar informações, uma tendência que nasceu com a Internet, está se tornando hegemônica. Já vai tarde aquele argumento lugar-comum que lamenta: “temos excesso de informação, mas não temos tempo de digerí-las”.

Nesse sentido, no lugar de reforçar o olhar policialesco sobre os usuários, e aqui estou pensando em meus alunos, minha preocupação maior é se não estaríamos perdendo tempo com isso, pois é urgente que os alunos sejam educados em linguagens de programação. Estas se transformarão, certamente, em uma habilidade fundamental não apenas para aqueles que vierem a se tornar agentes de mudança na sociedade, mas para o tratamento das informações de maneira geral.

Por Rodrigo Abrantes da Silva*

rodrigo-abrantes*Rodrigo Abrantes da Silva é historiador e professor. Especializou-se em História Contemporânea pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e atuou como pesquisador do Projeto Análise e do Núcleo de Pesquisas de Psicanálise e Educação (NUPPE) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Edita ainda o blog www.aulaplugada.com.

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