agosto 11, 2016

Conversa com o Gestor: Gênero e Diversidade nas Escolas

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CULTURA INGLESA – BANNER DE CONTEUDO

Matéria publicada na edição 120 | Agosto/2016 – ver na edição online

“Erradicar desigualdade é uma questão de direitos humanos. É fundamental construir espaços de diálogos tanto sobre o direito à igualdade e oportunidades como de respeito às diferenças. E a escola, ao nosso ver, é o espaço privilegiado capaz de liderar esse movimento que é, de fato, capaz de introduzir novos e transformadores padrões sociais e culturais”, diz psicóloga.

 Por Rafael Pinheiro / Fotos Divulgação

Localizado em São Paulo, o Colégio Oswald de Andrade possui três unidades - Tipuana, Girassol e Cerro Corá

Localizado em São Paulo, o Colégio Oswald de Andrade possui três unidades – Tipuana, Girassol e Cerro Corá

Historicamente, agregamos em nossa realidade ações, planejamentos, condutas e direcionamentos que recebemos de amplas e diversas parcelas que nos constituem como ser humano em uma sociedade heterogênea que, de certa forma, dialoga com nossas crenças, anseios, escolhas, identidades, questionamentos e comportamentos.

Diariamente, somos abraçados por uma lista gigantesca de tarefas que nos induzem e estimulam produções e criações no campo social. E, a partir de todos esses movimentos, conseguimos compreender algumas questões que nos envolvem de forma intrínseca e complexa. Todos os dias pela manhã existe um grande movimento social que transcende tarefas, horários, compromissos, trabalhos e saberes em instituições de todos os segmentos – incluindo, até mesmo, o ambiente educacional. Ao soar o sinal matinal nas primeiras horas, abre-se os portões físicos das escolas que representam a evolução, o conhecimento, a descoberta (de si e dos outros), a interferência (motora, social e psíquica) e consequentemente as alegrias, frustrações, dificuldades e realizações.

Experiências individuais, conhecimento coletivo, descobertas interiores e sociais. A escola representa uma junção de reflexões que guiam os alunos – tanto em sala de aula, como em atividades externas – a um relacionamento social, cultural e educativo. E, além de aulas em diversas matérias, pensamentos, observações e desejos nascem em cada aluno de maneira ímpar – e inesperada.

Se tivermos a ímpar oportunidade de estabilizar nosso olhar ao redor do campo educacional e, consequentemente, em sua estrutura (física, cultural e pedagógica), podemos observar infinitas descobertas e valores que, de uma forma ou de outra, representam (e espelham) um universo de possibilidades em cada instituição de ensino. Se observarmos atentamente todos os alunos, podemos ressaltar características que conduzem e salientam seus gêneros, que implicarão em suas descobertas, suas relações entre si, suas evoluções, criações e entendimentos sociais.

As discussões e debates que envolvem o gênero, nunca estiveram tão em voga como nos últimos tempos. A sociedade, ao longo dos anos, abre espaço e mostra-se permissiva a outros olhares e mudanças significativas. Compreender a existência de novas percepções é expandir o olhar para uma realidade mundial que ganha força e evidência a cada dia. Entrelaçar a educação e a reflexão sobre gênero favorece um pensamento compatível com a cidadania, diversidade e inclusão social.

ENTRE O AZUL E O COR-DE-ROSA

Desde a infância, as crianças são induzidas a seguirem padrões pré-estabelecidos e culturais de vida. Com o tempo, podemos identificar diferentes habilidades e preferências que aparecem no cotidiano de meninos e meninas, aspectos e projeções que ressaltam o seu gênero. Em um passado não tão distante, o azul era uma cor usada apenas por meninos e o rosa aparecia em diversos adereços e acessórios femininos.

Assim, de maneira instintiva e imperceptível, criava-se um espaço de ordem masculina para o garoto brincar com seus imensos carrinhos e, do outro lado, as bonecas aguçavam a feminilidade das garotas. Nesses espaços, o “lugar do menino” e o “lugar da menina” permaneciam distantes entre eles, destacando diferenças em roupas, cortes de cabelo, gestos, falas, brincadeiras, sentimentos, percepções e modelos pautados através das relações e diferenças entre os seus gêneros.

“Gênero é a construção social, histórica, cultural e econômica do sexo anatômico”, diz Keila Deslandes, professora universitária. “O ‘ser mulher’, tanto quanto o ‘ser homem’, não se define ou restringe à presença dos caracteres sexuais primários ou secundários no ser, mas, sobretudo, por uma série de expectativas que se tem em relação ao tornar homem ou mulher na sociedade”.

Dentro do ambiente escolar, como é possível diminuir estereótipos e não reforçar o tratamento divergente entre alunos de sexo opostos? E, acima de tudo, é necessário o debate sobre gênero e diversidade sexual nas escolas? “O debate de gênero e sexualidade nas escolas tem sido muito estigmatizado pela temática da orientação sexual, que se constitui como um grande tabu na sociedade brasileira. Mas, por óbvio, o tema de gênero nas escolas não se restringe à temática da orientação sexual e pode e deve ser ampliado a todo debate sobre a igualdade/equidade relacionada aos feminismos e ao empoderamento das mulheres na sociedade”, ressalta Keila.

Para Beatriz Monteiro, escritora e psicóloga, a redução do gênero ao aspecto do biológico é limitadora, empobrecedora, promotora de desconforto, conflito, problemas de autoestima e até disfunções mais sérias. “Considerando ser objetivo da escola o desenvolvimento integral do aluno, a reflexão sobre esse aspecto da vida é extremamente importante. Quem sou eu? Qual o meu papel no mundo? O que quero e posso fazer da vida? São questões fundamentais e passam necessariamente pela reflexão de gênero que, quanto mais livre de estereótipos e preconceitos mais levará a verdade de cada um, ao sentimento de estar confortável consigo mesmo e com o mundo”.

De acordo com Beatriz, o sentimento de inadequação sexual ou de identidade de gênero pode acarretar perturbações e desconfortos psicológicos, como bullying, preconceito, pressão familiar, conflito de aceitar a si mesmo, corresponder às expectativas sociais, “tudo isso impacta a autoestima da pessoa, podendo levar a problemas mais sérios como, por exemplo, ansiedade, definidas como ataques repetidos e intermitentes de medo que alguma coisa ruim aconteça. E até mesmo à depressão, o persistente estado de espirito negativo, falta de interesse da vida diária, letargia e fatiga”.

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