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Revista Direcional Escolas
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A difícil arte de educar…governar…

Em 10 maio, 2019
Colunas e Opiniões

Vivemos na contemporaneidade em uma sociedade caracterizada pela diversidade, pluralidade religiosa e multicultural. Como educar neste contexto?  A heterogeneidade é oportunidade de conhecer e dialogar com as diferenças. Mas, o que é dialogar?  Aqui reside o desafio de se construir esta possibilidade. O narcisismo é a marca maior que presenciamos em nossos dias, um individualismo exacerbado em que a alteridade tende ao apagamento resultando numa predação do outro. E aí? Como fazer? Há uma busca desenfreada por manuais de instrução.

Neste contexto, pesquisando a Base Nacional Comum Curricular, deparei com a proposta do Ensino Religioso em que a primeira unidade temática centra-se nas diferentes identidades e alteridades. A Base Nacional Curricular Comum, descrevendo o primeiro conteúdo acerca do Ensino Religioso, afirma que a percepção das diferenças (alteridades) é a que permite diferenciar o “eu”  o “outro”, “nós” e “eles”.  As relações estabelecidas entre as pessoas são mediadas por referências simbólicas, ou seja, representações, saberes, crenças, valores, indispensáveis para a construção das identidades.  Estes elementos fundamentam a unidade temática Identidades e Alteridades, percorrendo todo o ensino fundamental, tendo como objetivo “que os estudantes reconheçam, valorizem e acolham o caráter singular e diverso do ser humano, por meio da identificação e do respeito às semelhanças e diferenças entre o eu (subjetividade) e os outros (alteridades), da compreensão dos símbolos e significados e da relação entre imanência e transcendência. ” (436). Portanto, interculturalidade e ética da alteridade constituem as bases teóricas e pedagógicas do Ensino religioso.

Conteúdo Comunidade Direcional Escolas

Interessante pensar esta área do conhecimento a partir desta ótica da alteridade, pois com o desaparecimento dos grandes referenciais de nossa cultura, fala-se por todos os lados de busca de identidade, identidade sempre ameaçada por uma corrida desenfreada de novos produtos, símbolos e valores. E por todos os lados erguem se vozes clamando por uma identidade, uma referência onde se possa encostar-se e sentir-se seguro.

Quando falamos de alteridade, é muito comum traduzir este conceito como sendo o “outro”. Na verdade, é um conceito que aponta para algo que está entre eu e o outro e nos permite que sejamos, ao mesmo tempo, eu e outro, preservando a singularidade de um e do outro.  Alteridade é substantivo abstrato, formado da junção de duas palavras:  do latim “alter” e do sufixo “idade” significando qualidade do que é outro ou algo atribuído ao outro.) A qualidade de ser “outro” em relação a “algo” ou “alguém”.  “ O termo “alter” significa outro entre dois, ou é o que introduz a diferença em relação a um. A palavra alteridade é utilizada como uma categoria que aparece especialmente no universo da filosofia e, por derivação, também das ciências humanas, enquanto que a linguagem cotidiana utiliza correntemente o termo “outro”. Esse pronome se refere primordialmente ao diverso, ao diferente, mas também pode ser utilizado como o seguinte, ou o restante,” segundo Jacqueline Moreira (2002).

O diferente é o outro e o reconhecimento da diferença é a consciência da alteridade.  O outro, por ser diferente, se apresenta como “numinoso”, (do latim “numen”, divindade, é um adjetivo que qualifica algo que é sagrado ou divino) atrai, mas atemoriza. Querer traduzir este “outro”, explicá-lo, corre se o risco de eliminar o reconhecimento da diferença. O outro “pede” uma decodificação, mas decodificar não é reduzi-lo ao mesmo. Ao se colocar diante do outro, já se estabelece possibilidades de como a relação irá se estabelecer.   Como temos percebido, a modalidade de relação mais comum com o outro é a do conflito, “da luta mortal, quando o eu se aproxima do outro para escraviza-lo, para reduzi-lo ao papel de testemunha e de espelho, para reduzi-lo ao mesmo” Moreira (2002). Como exemplo, podemos mencionar a relação estabelecida entre europeu-colonizador e outro (em nosso caso, o indígena). O indígena não foi reconhecido na sua diferença, mas literalmente quebrado, desconheceu-se a diferença. Como afirma Moreira (2002): “pois para escutar o outro que pulsa em nós, é necessário calar o “eu” que quer se impor como consciência controladora, que se arroga na crença de um “eu” igual a si mesmo, recusando a abrir-se ao desafio da diferença. ” (14)

Eis a difícil tarefa de educar. Freud fala das três profissões difíceis de exercer: governar, educar e psicanalisar. Nossa concepção de educação centra-se na não escuta do outro. É um manipular o outro para que aprenda o que eu quero e repita depois. Como educar, escutando sempre o desejo do outro e para que este outro nasça como sujeito desejante deveria ser o nosso pão de cada dia. Termino esta reflexão com uma metáfora da pedagogia de Santo Agostinho acerca do educador que diz algo nesta direção: “o mestre não ilumina com sua luz a alma do aluno. Da mesma forma que alguém ilumina uma casa quando abre suas janelas, o mestre, abrindo passagem à luz da verdade, faz que esta ilumine a alma do aluno.”

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    José Maurício da Silva

    Doutor em Psicologia pela PUC-MG (2015). Mestre em Psicanálise pela PUC-MG (2007). Possui graduações em Filosofia pela PUC-MG (1985), em Psicologia pela Universidade Gama Filho (2000) Rio de Janeiro e em Teologia pela Faculdades Associadas Ipiranga (1991). Especialização em Teoria e Clínica Psicanalítica pela Universidade Gama Filho (2002) e Especialização em Psicoterapia Reichiana (2003). Atualmente é assessor do Colégio Santo Agostinho em Contagem. Psicólogo com experiência na área clínica, com ênfase na teoria freudiana e em Wilhelm Reich.

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