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Guia para Gestores de Escolas

A monstromática: Como ajudar as crianças diante deste medo

Estava na sala de espera do meu dentista e ouvi um menino que tinha por volta dos 9 anos de idade afirmar para a mãe que estava com medo da prova de matemática, que  esta dá mais medo que motorzinho do dentista. E, diga-se de passagem, é tão temido pelas crianças.

Fiquei pensando que esta não é uma queixa incomum. Muitas crianças tem verdadeiro pavor da disciplina. Qual seria o motivo pelo qual a matemática assusta tanto, ou causa sentimentos de ansiedade?

Tem algumas explicações. Uma delas é a falta de noções básicas no desenvolvimento do raciocínio lógico matemático que provoca falta de aprendizagem de conteúdos, lacunas na aprendizagem e distúrbios de aprendizagem como a discalculia, no caso da matemática.

 

Agora não sei se não piorei a questão com tantos nomes complicados, mas vou explicar. Começando com o que é discalculia. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), é um transtorno do neurodesenvolvimento, com origem biológica e associada a manifestações comportamentais, que acarreta dificuldades nas operações matemáticas com prejuízos significativos nas tarefas diárias, e na escola. Geralmente manifesta-se na idade escolar, com dificuldades persistentes, rendimento muito abaixo do esperado, em crianças com níveis normais de funcionamento intelectual, ou seja, que não apresente deficiência intelectual, auditiva, visual, problemas neurológicos ou motores.

 

Uma ótima notícia é que a grande maioria das crianças e adolescentes é capaz de aprender e desenvolver o raciocínio lógico matemático, sem maiores dificuldades. Mas então, por que será que tantas crianças apresentam dificuldades com a matemática e muitas vezes culminam em medo ou sentimento de incapacidade?

 

O raciocínio lógico começa a desenvolver-se nos primeiros anos de vida, com atividades sensório motoras, quando o bebê começa a manipular objetos com uma finalidade de descobrir suas propriedades e meios novos para obter os efeitos desejados (Dolle, 1978).

 

Por volta dos 5 -6 anos de idade a criança começa a construir a noção de número, com a conservação das quantidades discretas, que é a capacidade de ter pensamento operatório de que uma mesma quantidade não modifica após a reorganização espacial dos elementos. (Piaget, 1968). Esta inteligência é observada na prova piagetiana de conservação de fichas, em que o avaliador, após colocar uma fileira de fichas, pede à criança que coloque outra fileira com a mesma quantidade. Após a constatação da quantidade, o avaliador modifica o espaçamento entre as fichas de uma das fileiras, sem modificar a quantidade, deixando-a com mais ou menos comprimento que a fileira inicial, e verifica se a criança continua afirmando a igualdade de quantidade de fichas nas duas fileiras. 

Antes dos 7 ou 8 anos, as crianças, após a modificação espacial em uma das fileiras de objetos afirma que há mais ou menos quantidade de fichas, pois uma fileira está menor que a outra, não conservando a quantidade. Se esta criança não é capaz de conservar o número, será muito difícil ela aprender a somar, pois para ela, o número de fichas depende da configuração espacial e não da quantidade.

 

Acontece que muitas escolas ficam mais preocupadas em transmitir conhecimentos aritméticos sem que as crianças tenham requisitos cognitivos necessários para aprender.  Para fazer uma analogia, seria o mesmo que querer ensinar uma criança que ainda não sabe andar a correr. 

 

Observo em consultório psicopedagógico, que muitas crianças chegam com dificuldade em aprendizagem em matemática, e quando realizada avaliação, encontramos atraso no desenvolvimento cognitivo. Uma criança que ainda necessita de material concreto irá apresentar dificuldades em entender enunciados complexos e que exigem raciocínio abstrato. 

 

Dados do índice de desenvolvimento da educação básica (IDEB) apontam que apenas 40% das crianças no final do 5º ano do ensino fundamental conseguiram aprender os conteúdos básicos necessários para a série e somente 20% dos alunos no final do 9º ano conseguiram aprender o que era esperado. A bola de neve da não aprendizagem continua no ensino médio, quando apenas 10% dos alunos aprendem os conteúdos básicos esperados para a série e para a vida, ou seja, aprendem a calcular juros simples, por exemplo. A porcentagem de adolescentes que chegam ao final do ensino médio sem saber os conteúdos em matemática é explicada facilmente pelo fato de que a ela depende muito de noções básicas de desenvolvimento cognitivo principalmente das noções de conservação, seriação e classificação. Os conteúdos também são progressivos e quando há lacunas na aprendizagem de base fica mais difícil entender os mais complexos. Ou seja, se houve falhas na aprendizagem da divisão com dois algarismos, vai ficar mais difícil este aluno entender a lógica das frações.

 

Como nos contos de fada, onde tudo se inicia com uma situação de antagonismo entre o bem e o mal, mas que no seu final sempre termina com felizes para sempre, nós, pensadores preocupados com o futuro das crianças que, com certeza, neste conto de fadas estão sofrendo com a monstromática, podemos fazê-las compreender que todos os requisitos para que elas vençam as dificuldades e cheguem ao final feliz já nasceram com elas, cabendo a nós, que nesta analogia somos as fadas madrinhas, mostrar o caminho para o desenvolvimento que culmina em uma criança mais tranquila, mais responsável, e com melhor autoestima.

 

 

 

Alessandra Bizeli Oliveira Sartori

Pedagoga, psicopedagoga, psicanalista, mediadora do Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), mestre em saúde da criança e do adolescente pela Unicamp.

Experiência com estimulação e reabilitação cognitiva, psicanálise de criança, adolescente e adulto.  Atua na Clia psicologia, saúde e educação.

www.cliapisicologia.com.br

(11)4424-1284 / (11)2598-0732

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