Guia para Gestores de Escolas

Revendo nossa travessia

“A incerteza foi sempre o chão familiar da escolha”. Zygmunt Bauman

Ao longo dos últimos dias começamos a navegar por um mar desconhecido, com ondas de notícias, fake news e mortes sobre o nosso inimigo invisível – coronavírus –que chegou para nos lembrar da brevidade da vida. E como não lembrar do filósofo Sêneca e sua obra sensível: A Brevidade da Vida, onde ele reflete sobre o tempo, a passagem da vida e de como ela pode ser breve ou longa, desperdiçada ou proveitosa, dependendo de como ela é encarada. “A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas”.(SÊNECA[1], p. 26, 2006). Ele fala que viver e existir são coisas bem diferentes. Existir, acredito eu, é o que a maioria de nós, seres humanos, vínhamos fazendo: ‘viver por viver’, apenas existindo em seu dia a dia, como se fôssemos dono do tempo.

Neste momento, algo está mudando em nós, continuamos em isolamento social, o que nos leva a refletir e a reavaliar nossas certezas, além de ressignificarmos nosso lugar no mundo atual.

O momento é de profunda reflexão e recolhimento. Desde a semana passada, estou imersa em meu escritório em casa e neste momento olho para uma pilha de livros que contém um lembrete meu: Livros para serem lidos. Tomei tamanho susto com o tamanho da pilha, e a pergunta que surgiu é quando eu estava pensando em ler? Será que achei que eu dominava o Tempo? Equívoco ingênuo, me esqueci da brevidade da vida! E neste encontro comigo, tive vontade de escrever uma carta aos meus colegas professores:

Queridos/as Professores e Professoras,

Venho através desta tentar diminuir o sofrimento que cada um de vocês está sentindo neste momento, pois a única certeza que temos, até o momento, são as incertezas e o desamparo. Teremos que nos reinventar!

Não sei se vocês perceberam, mas ao longo destes meses algo diferente pairava nas pessoas, elas estavam navegando em seus barcos sozinhas, entrando em marés raivosas e esqueceram de levar suas boias – a pressa não permitiu. Em alguns momentos até arriscávamos navegar nas encostas do amor, mas rapidamente os discursos de ódio e de intolerância nos arrebatavam novamente.

Refletindo ainda sob essa perspectiva, nos descuidamos em algum momento e nos soltamos ladeira abaixo, sem condução, sem esperança, e na contramão do que o momento atual pedia: PACIÊNCIA HISTÓRICA, onde podíamos, através da nossa sensibilidade, perceber que cada coisa tem o seu momento e o seu tempo. Freire nos alertava sobre isso: “Se você não fizer hoje o que hoje pode ser feito, e tentar fazer hoje o que hoje não pode ser feito, dificilmente fará amanhã o que hoje deixou de fazer, porque as condições se alteram”.

Meus amigos e minhas amigas, estava tudo ali, as tempestades eram anunciadas diariamente, só esquecemos de olhar os ventos e observar por onde eles nos levavam, o farol já estava apagado e mesmo assim seguimos na encosta da pressa ignorando as imagens que assistíamos entre outras nações e seus sinais, como: o conflito anunciado entre Estados Unidos e Irã;  os incêndios que se alastravam em diversos lugares; e as enchentes que afundaram nossos sonhos e esperanças. Aos poucos, fomos nos “acostumando” com tudo, e sem percebermos acabamos naufragando no descaso, na normose[2],fechamos nosso canal de intuição e nos perdemos na pressa, na correria de não sentirmos com o coração, e mais uma vez esquecemos do essencial: A HUMANIDADE, nossa família.

O momento agora é de tomarmos nossos lugares e ressignificarmos nossa viagem que, até o momento, não temos o seu real tempo de duração, nem o seu destino certo, mas a navegação deve continuar.

Os momentos são de tormentas, mas atentos ao nosso Timoneiro, deem o nome a ELE, do que quiserem: Deus, energia, intuição, amor… mas o escutem, de alguma forma ele nos fala. Não fiquem parados, não tenham pressa de chegar em algum lugar que nem mais sabemos onde é. Agora, não importa em que lugar chegaremos, o que importa é a travessia.


[1] SÊNECA, Sobre a Brevidade da Vida. Editora: L&PM Pocket, 2006. 

[2] Para Weil, normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte.

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