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Guia para Gestores de Escolas

Sua escola ocupa o papel do “mocinho” ou do “vilão” na mente das Famílias?

Por Roberta Bento e Taís Bento

Se você resgatar agora somente as conversas e mensagens que recebeu de pais ou mães de alunos ao longo dessa semana, quantas delas terão um conteúdo ou abordagem que denota parceria? Com que frequência as interações com as famílias da sua escola se iniciam a partir de palavras de apoio mútuo, de busca coletiva por caminhos para que vocês encontrem, juntos, caminhos para enfrentar desafios que as crianças e adolescentes estão enfrentando nos estudos, na escola, nos relacionamentos ou em casa? Infelizmente, a resposta que recebemos para essas perguntas trazem algo muito próximo de zero.

Antes de propor alternativas para mudar esse quadro, que vem contribuindo para as questões de saúde mental dos profissionais da educação e tornando o desafio dos estudantes ainda maior, precisamos refletir sobre algumas possíveis causas desse distanciamento da família e postura mais agressiva da família.

Em nossos encontros mensais com Gestores de escola de todo o Brasil, já discutimos alguns dos fatores que levam muitas famílias com filhos em idade escolar a olhar para a escola como uma instituição com objetivos opostos, ou da qual se deve desconfiar sempre. Entre eles estão os “ismos” característicos da era em que vivemos, e cada vez mais intensos nas gerações mais novas: individualismo, imediatismo e o extremismo nas opiniões e na visão de mundo.

Outro fator que reforça o distanciamento entre família e escola está relacionado ao estudo feito pelos pesquisadores Gabor Maté e Gordon Neufelf, que cunharam o termo “criança orientada aos pares”, em tradução livre, ou peer-oriented-child. Segundo os autores do livro “Hold on to your kids”, ainda não publicado em português, as crianças e adolescentes vêm substituindo vínculo que precisariam criar com seus responsáveis por relacionamento afetivo com influenciadores digitais, colegas da mesma idade e desconhecidos que consideram “amigos virtuais”. A consequência é uma enorme dificuldade para o convívio social com os colegas de classe, gerando conflitos frequentes, isolamento e situações de bullying que eclodem na escola. Para os responsáveis, fica a sensação de que a escola não está cuidando adequadamente de seus filhos. Isso tudo culmina com distanciamento e cobranças, quando a parceria se faz ainda mais importante.

Um terceiro elemento ajuda a explicar a posição de “vilã” que muitas famílias enxergam na escola: a forma como a mente humana constrói seu entendimento do mundo, a partir de narrativas nas quais há sempre a necessidade da identificação de quem exerce qual papel.

O que nos aproxima e conecta com as pessoas são as Histórias que conhecemos sobre elas. Depois, as histórias que construímos juntos reforçam cada vez mais esse vínculo. Está cientificamente comprovado que as Histórias são o habitat, fora do mundo físico, no qual o ser humano vive. Tudo o que fazemos na vida, todas as decisões que tomamos, caminhos que seguimos, relações que encerramos, pessoas com quem nos identificamos, tudo isso está baseado nas histórias que ouvimos e naquelas que contamos a nós mesmos.

Nós experimentamos nossa vida como se fosse uma trama interminável, na qual cada pessoa com quem cruzamos assume o papel de mocinho, aliado, bandido, vilão, herói, monstro, rival, parceiro. O que todas as pesquisas sobre o poder do Storytelling confirmaram é que esse elenco, com diferentes personagens, é crucial para a saúde da nossa cognição.

A partir do avanço da tecnologia e das redes de comunicação, passamos a ouvir, e acreditar, as histórias que as bolhas nas quais estamos inseridos nos contam, para além da comunidade na qual vivemos. E isso explica essa postura desconfiada, distante, muitas vezes até agressiva, de grande parte das famílias para com a escola: uma sociedade que constantemente critica, desvaloriza e desrespeita a escola e os profissionais da educação. A história que vai se fixando na mente de cada família coloca a instituição “escola” como sinônimo de risco, alerta, perigo.

A boa notícia: o contato próximo, a conexão olho-no-olho, a comunicação direta entre Gestor Escolar e adulto-responsável tem poder maior do que qualquer narrativa construída a distância. Dá trabalho? Sim. Compensa o investimento de tempo e energia? Totalmente!

Os pais e as mães dos seus alunos conhecem suas histórias, Gestor? Sabem das suas lutas para chegar até aqui? Pois é esse o ponto de partida para que você passe a ocupar o papel de aliado nessa narrativa que a cada dia uma família constrói sobre a infância ou adolescência do/a filho/a e o papel que a escola tem nesse desenvolvimento.

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