Abril 25, 2016

Desenvolvimento Infantil- Fatores de risco e de proteção

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CULTURA INGLESA – BANNER DE CONTEUDO

Virginia Deiró Nosella

Terapeuta Ocupacional da Clia Psicologia, Saúde & Educação

Quando se fala em desenvolvimento infantil, não se fala só de desenvolvimento motor, de fala e de cognição. Pensa-se, deforma mais ampla e integra, na necessidade de desenvolver todas as áreas, juntas e simultaneamente, incluindo a psicológica, social e familiar:

O desenvolvimento integral faz referência a um crescimento harmônico da aparelhagem e funcionalidade sensorial, perceptiva, psicológica, intelectual, motora, física e da linguagem. Este crescimento ocorre especialmente durante as etapas críticas do desenvolvimento e maturação neurocerebral do individuo. (LEGARDA, 2010, pg 15).

 Há pesquisas, métodos e estudos em número considerável sobre tratamentos de doenças e transtornos. Porém, e infelizmente, pouco é pensado, feito e estudado sobre medidas de prevenção, principalmente, quando pensamos em transtornos psíquicos, emocionais ou comportamentais. Para agir preventivamente é necessário não apenas compreender a doença, mas, principalmente, conhecer seus possíveis desencadeadores.

  Quando o assunto é crianças e a importância de perceber possíveis gatilhos para o desenvolvimento de algumas doenças, concluímos que o meio mais eficaz é as pessoas mais próximas estarem cientes e atentas. Essas pessoas são, além da família, os profissionais da educação, considerando o tempo grande que a criança passa na escola. Portanto, é fundamental a reflexão sobre os fatores de risco e de proteção no desenvolvimento infantil.

Este texto é um resumo do artigo de Maia e Williams (2005) que faz uma boa revisão bibliográfica sobre o assunto. Pretendo com isso chamar a atenção e provocar reflexões sobre possíveis atuações dos educadores em relação à prevenção e à proteção das crianças.

 Os fatores de riscos são condições ou variáveis ambientais, biológicas, genéticas ou sociais que corroboram para o aparecimento de uma desordem emocional ou comportamental e/ou interferem negativamente no desenvolvimento da criança em qualquer área.

 A violência doméstica, por exemplo, é um fator de risco importante e de alta probabilidade de gerar sequelas em um ou mais aspectos do desenvolvimento infantil, podendo ser físico, psicológico, denegligência, conjugal ou sexual.

 O artigo referido ressalta, a partir de uma revisão bibliográfica, fatores de riscos e aspectos referentes aos pais e à família que podem ser sinalizadores disso. Destaca os fatores relacionados à violência doméstica, como, pais com baixa tolerância à frustração, baixa autoestima, rigidez ou autoritarismo em demasia, ausência de empatia.  Outros fatores, como, uso de substância psicotrópica lícita ou ilícita, depressão ou outros problemas psicológicos, doenças, menor compreensão dos relacionamentos sociais e do papel parental, expectativas não realistas sobre o filho ou percepção negativa dele. Finalmente, presença de deficiência mental, baixa escolaridade, famílias com distribuição desigual de autoridade e poder, situação de crise ou estresse social, família muito numerosa ou ausência de um dos pais.

 Aponta ainda que crianças menores de cinco anos, prematuras, que apresentam algum tipo de deficiência ou comportamentos agressivos, desafiadores, motoramente agitadas ou outros comportamentos consideráveis inadequados socialmente, podem apresentar maior risco de estarem sendo submetidas à violência. Destaca aspectos que podem agravar os fatores de riscos, como os ambientais: lar violento, discórdia conjugal, baixo status socioeconômico, aprovação da violência e da punição física pela sociedade.

 As consequências desses abusos das crianças são inúmeras e podem se apresentar de formas variadas dependendo da severidade que se apresentam e do estágio de desenvolvimento que essa criança se encontra, bem como da intensidade, gravidade, frequência e cronicidade com que esses abusos acontecem. Dentre as consequências, os autores desse texto em análise destacam:

-abandono da casa (de crianças e adolescentes) para viverem na rua;

– repetição do comportamento violento no futuro;

– desnutrição;

– atraso no desenvolvimento;

– morte;

-prejuízo dos pensamentos intrapessoais como: medo, baixa-estima, ansiedade e depressão;

-prejuízo na saúde emocional (dificuldade de controle de impulso, transtornos alimentares, abuso de substâncias);

-dificuldades sociais como: antissocial, diminuição da simpatia e empatia, delinquência, criminalidade;

– dificuldade na aprendizagem e diminuição do rendimento escolar;

– queixas somáticas e falha no desenvolvimento;

– comportamento agressivo, regressivo ou autolesivo;

– distúrbio de atenção;

– transtorno pós-traumático;

– prostituição e promiscuidade;

– ideação suicida.

 No contraponto aos fatores de risco, estão os fatores de proteção, que são condições ou variáveis ambientais, biológicas, genéticas ou sociais que agem a favor do desenvolvimento da criança e atuam na prevenção de aparecimento de desordem emocional ou comportamental.  Esses fatores de proteção podem ser resumidos em um bom funcionamento familiar, existências de vínculos afetivos, apoio e monitoramento parentais e extra familiar. São destacados os seguintes fatores:

– atividades adequadas para a criança;

– autonomia na medida correta;

-orientação social positiva;

– autoestima;

– coesão familiar;

– afetividade e ausência de discórdia familiar;

– fontes de apoio individual ou institucional para família e criança;

– bons relacionamentos da criança com seus pares e pessoas de fora da família;

– suporte cultural.

 Maia e Williams (2005) também dissertam sobre práticas educativas positivas, isto é, no uso adequado da atenção e estabelecimento de regras; no afeto seguro e contínuo; no acompanhamento das atividades escolares e de lazer; no comportamento familiar que desenvolva empatia, senso de justiça, de responsabilidade, de trabalho, de generosidade e de conhecimento do certo e errado; grau de escolaridade materna e seu baixo nível de depressão; vínculo afetivo positivo com outros cuidadores; crenças religiosas; presença de amigos; frequência na escola e bons vínculos com professores. Citam evidências de resultados positivos de intervenção junto a familiares de adolescentes, promovendo a supervisão familiar e o monitoramento, facilitando assim a comunicação intrafamiliar com o objetivo de criar vínculos efetivos.

 Outra temática interessante apontada pelo texto é a importância da resiliência na criança como um fator de proteção. Para o desenvolvimento desse comportamento é importante o relacionamento positivo com ao menos um adulto significativo, a existência de uma crença religiosa, expectativa acadêmica, ambiente familiar positivo, inteligência emocional e habilidade para lidar com o estresse.

 Concluem os autores do texto insistindo sobre a importância dos profissionais, que atuam junto à infância e adolescência, conhecerem esses fatores para poderem atuar e intervir. Assim como conhecer a rede de proteção social, instituições, como: conselho tutelar, assistência social e de saúde que têm como princípio de ação garantir os direitos de um desenvolvimento integral às crianças e adolescentes, também como estratégia da prevenção ou para situações de intervenção.

 Vale ressaltar o papel da escola que é tão importante quanto o da família. A escola assume um papel importante no desenvolvimento infantil, pois é o local onde se sistematiza a educação e se estabelece a função social de promover a aprendizagem dos conteúdos da cultura, estimulando as capacidades da criança em sua forma singular de ser e de fazer (BISSOLI, 2014, p. 595).    Ainda segundo Bissoli (2014, p. 595) “cabe ao professor compreender que a cultura, por diferentes formas de mediação, pode ser apropriada pela criança, contribuindo para sua formação como pessoa completa”. Dessa forma, proporciona às crianças um espaço estruturado e organizado para se conhecer e testar suas capacidades e desenvolve-las.

 É por meio do fazer que se constrói um desenvolvimento harmônico, sólido e estruturado, além de dar continuidade ao papel importante da escola, é indispensável  trabalhar na conscientização das famílias com o objetivo de contribuir no entendimento de seus atos. Mas não sendo isso possível ou suficiente, o professor pode desempenhar um papel importante como fator de proteção, pois de fato, alem de ensinar, ele desempenha vários dos itens de fatores de proteção citados acima, como por exemplo, ser um adulto que a criança estabelece um relacionamento positivo, mesmo que o único em seu contexto pode ser o suficiente.

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